quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Envelhecimento

        Para que se possa compreender o que ocorre com os idosos, é necessário saber que, com o passar do tempo, o organismo apresenta uma série de modificações anatômicas e funcionais, relevantes aos aspectos nutricionais.

       Uma das maiores alterações relacionadas ao envelhecimento é a mudança na composição corporal. O tecido adiposo aumenta, depositando-se principalmente no tronco, há uma diminuição da massa magra, que se exacerba após os 60 anos e ocorre em todos os órgãos, sendo mais acentuada nos rins e no fígado, porém, proporcionalmente, muito mais intensa na massa muscular, influenciando negativamente a força e a mobilidade e favorecendo a suscetibilidade para quedas.

            As funções orgânicas decaem como um todo, variando em intensidade segundo o órgão ou sistema em questão. A habilidade para responder aos hormônios está reduzida, assim como a capacidade para sintetizar ou degradar proteínas. O colágeno se torna mais fibroso e menos elástico. O coração apresenta uma progressiva queda do débito cardíaco e da capacidade aeróbica o que compromete sua reserva funcional. Quanto ao sistema renal, o fluxo plasmático renal está reduzido à metade sendo que, aos 70 anos, os rins possuem 50% da sua reserva funcional prévia. O olfato, o paladar e a visão diminuem influenciando negativamente a ingestão de alimentos, assim como a coordenação motora fina está comprometida e tende a piorar com as doenças neurológicas, o que pode levar o idoso a evitar alimentos que possam causar dificuldades de manipulação durante a refeição e assim contribuir para a inadequação alimentar.

Estudos têm demonstrado que o declínio cognitivo em idosos pode estar relacionado com deficiências nutricionais graves, principalmente pela deficiência das vitaminas B1 (tiamina), B3 (niacina), B12 (cobalamina) e ácido fólico. Da mesma maneira, pesquisas também demonstram que a desnutrição energético-proteica em idosos está associada com o declínio cognitivo.

Os ácidos graxos ômega-3 possuem efeitos benéficos na proteção ao declínio cognitivo, por ser um dos principais componentes das membranas neuronais e tem um papel biologicamente ativo na manutenção da estrutura e fluidez da membrana celular. A vitamina D também tem sido associada com os efeitos neuroprotetores e antiinflamatórios.

Os idosos sofrem com mais frequência que os jovens efeitos adversos dos medicamentos. Isto é consequência da queda de suas funções vitais, da múltipla e simultânea medicação e de seu estado nutricional, muitas vezes deficiente nesta fase da vida. Os efeitos metabólicos e digestivos adversos, que alguns medicamentos de uso habitual em geriatria produzem, devem ser considerados na análise da ingestão de alimentos. Os mais frequentes são:

- Tranquilizantes e psicofármacos: favorecem o relaxamento e diminuem a absorção intestinal;

- Diuréticos e laxantes: ocasionam desidratação e depleção de eletrólitos como magnésio, potássio e zinco;

- Antibióticos: alteram a absorção intestinal por destruição da flora. Provocam má absorção de carboidratos, vitamina B12, cálcio, ferro, magnésio e cobre e inibem a síntese proteica;

- Glicocorticóides: predispõem à gastrite, osteoporose (interferem na absorção do cálcio) e hiperglicemia,

- Analgésicos: favorecem as gastrites e úlceras.

A terceira idade, em geral, apresenta multiplicidade de doenças, e portanto, consome maior número de medicamentos. O uso de diferentes medicamentos, nesta época da vida, tem deixado de ser esporádico para converter em habitual. A polifarmácia em idosos aumenta a incidência de efeitos colaterais e interações medicamentosas e o seu uso inadequado, freqüentemente, provoca complicações graves. Nesse sentido, a utilização, a longo prazo, de drogas terapêuticas que interferem na digestão, na absorção e no metabolismo de nutrientes pode, também, ocasionar desnutrição nos idosos, além de desenvolver anorexia.


Quadro 1. Medicamentos e seus efeitos no estado nutricional ou absorção de nutrientes.
Classe
Medicamento
Deficiência de
Agentes antibacterianos
Ácido bórico
Trimetoprim
Isoniazida
Riboflavina
Folatos
Vitamina B6, niacina, vitamina D
Agentes anti-hipertensivos
Hidralazina
Vitamina B6
Agentes antiinflamatórios
Sulfasalazina
Colchicina
Folatos
Gordura, vitamina B12
Agentes redutores de colesterol
Colestiramina
Colestipol
Gorduras
Vitamina K, vitamina A, folatos, vitamina B12
Antagonistas H2
Cimetidina
Ranitidina
Vitamina B12
Antiácidos
Bicarbonato de sódio, hidróxido de alumínio
Folato, fosfato, cálcio, cobre
Antibióticos
Tetraciclina
Gentamicina
Neomicina
Cálcio
Potássio, magnésio
Gordura, nitrogênio
Anticoagulantes
Warfarin
Vitamina K
Anticoncepcionais orais
Estrogênios, progestínicos
Vitamina B6, folatos, vitamina C
Anticonvulsivantes
Fenitoína, fenobarbital, primidona
Ácido valpróico
Vitaminas D e K
Carnitina
Antimaláricos
Pirimetamina
Folatos
Diuréticos
Tiazidas
Furosemide
Triamtereno
Potássio, magnésio
Potássio, cálcio, magnésio
Folatos
Drogas anticâncer
Metotrexate
Cisplatina
Folatos, cálcio
Magnésio
Laxativos
Óleo mineral
Fenolftaleína
Sene
Caroteno, retinol, vitamina D e K
Potássio, gordura, cálcio
Tranqüilizantes
Clorpromazina
Riboflavina
Fonte: Nutritotal.                                                                                                        
As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:


Campos, MTFS; Monteiro, JBR; Ornelas, APRC. Fatores que afetam o consumo alimentar do idoso. Rev Nutr 2000; v.13, n.3: p. 157-165.

Castro, RCB. Deficiências nutricionais relacionadas com o declínio cognitivo em idosos. Disponível em: www.nutritotal.com.br Acessado em: 06/09/2014.

Logullo, P. Quais medicamentos podem causar depleção ou deficiência nutricional em idosos? Disponível em: www.nutritotal.com.br Acessado em: 06/09/2014.

Oliveira, JED; Marchini, JS. Ciências Nutricionais. 1 ed. São Paulo: Sarvier, 2003.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Atendimento Nutricional Ambulatorial em Pediatria


      A Resolução 8.234 do Conselho Federal de Nutricionista (CFN) garante ao nutricionista a atribuição privativa da prescrição dietoterápica e de suplementos e complementos nutricionais e a solicitação de exames necessários ao diagnóstico nutricional.

       Procedimentos básicos em uma consulta de nutrição:

● Leitura do prontuário a fim de conhecer a razão do encaminhamento da criança ao setor de nutrição, a história social e a história pregressa da criança;

● Avaliação antropométrica da criança: deve-se proceder ao preenchimento dos gráficos de crescimento presentes no prontuário, bem como à realização de cálculos antropométricos pertinentes à situação;

● Conhecimento de intercorrências no momento da consulta e evolução da criança desde a última consulta no serviço;

● Anamnese alimentar: deve-se detalhar horário, refeição, alimentos, forma de preparo, quantidade e frequência da utilização dos alimentos. Conhecer tipo de água consumida, bem como presença de filtro e geladeira no domicílio. Este momento destina-se a ouvir o relato da mãe, devendo qualquer orientação ser feita no final da consulta;

● Verificação da utilização de suplementos vitamínico-minerais (tipo e dosagem);

● Preenchimento do Cartão da Criança (gráfico de crescimento segundo o índice peso/idade) e explicação de sua interpretação ao responsável pela criança;

● Avaliação do calendário de vacinação no Cartão da Criança, registrando se o mesmo encontra-se atualizado ou não;

● Função intestinal (frequência das evacuações e consistência das fezes);

● Verificação dos resultados de exames e dados complementares;

● Impressão diagnóstica: descrever avaliação antropométrica, avaliação da ingestão alimentar e presença de intercorrências ou situações relevantes;

● Conduta: descrever a orientação alimentar realizada, fornecendo detalhes relevantes para modificações dietéticas futuras, e descrever a prescrição de suplementos nutricionais quando for o caso. A conduta deverá ser explicada à mãe e sua compreensão deverá ser avaliada através de perguntas;

● Registro de atendimento: a criação e manutenção de uma rotina de registro de atendimentos realizados permite, minimamente, conhecimento da demanda do setor; a partir do qual podem-se definir estratégias de atendimento, rotinas de condutas e delineamento de pesquisas.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:


Lacerda, EMA; Accioly, E; Faria, IG; Costa, VM. Práticas de Nutrição Pediátrica. 1. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2002.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Contagem de carboidratos: Por quê? Pra quem? Como se faz?

A terapia nutricional em diabetes tem como alvo manter ou melhorar o estado nutricional, a saúde fisiológica e a qualidade de vida do indivíduo, assim como tratar e/ou prevenir as comorbidades associadas. (SBD/2011)

A contagem de carboidratos foi criada na Europa em 1935, mas a ADA (American Diabetes Association) só começou a divulgá-la em 1994. No Brasil ela começou a ser usada a partir de 1997 e hoje é uma ferramenta imprescindível na vida do diabético.

Assim, como toda conduta nutricional, ela deve ser totalmente individualizada e respeitar faixa etária, nível sócio econômico, hábitos regionais, estado nutricional.

Por que o diabético se beneficia ao usá-la?

Porque lhe permite uma maior liberdade para se alimentar, ao mesmo tempo que deve seguir uma alimentação equilibrada como todas as pessoas, antes da contagem haviam muitas restrições aos diabéticos. Quando realizada adequadamente, o paciente pode comer de tudo em horários e quantidades pré estabelecidas, a contagem não leva em conta a qualidade dos carboidratos e não o tipo e sim a quantidade dele, ou seja se o carboidrato é frutose, lactose, glicose não importa, e sim a quantidade, o que possibilita a ingestão de alguns alimentos nunca antes imaginados por eles, inclusive frutas e açucares.

Por que conta-se só os carboidratos?

Porque os carboidratos são os primeiros a serem convertidos em glicose e são os que mais rapidamente elevam a glicemia. Ele é convertido em 100% no prazo de 15 minutos a 2 horas a partir da ingestão, enquanto as proteínas duram de 3 a 4 horas para serem convertidas (60%) e nas gorduras 10% apenas é convertido entre 5 a 6 horas.

A contagem deve ser feita em parceria da nutricionista especializada em Diabetes e do médico, para que seja feito o ajuste da correção da glicemia e a contagem de carboidratos com a insulina, o paciente usa uma insulina basal e outra rápida ou ultrarrápida para corrigir a hiperglicemia e para a alimentação que será feita.

Qualquer diabético pode fazer uso da terapia de contagem, mesmo os que não usam insulina (do tipo II). Ao invés do paciente receber uma lista de substituição de alimentos por grupos, ele será treinado pela nutricionista a fazer as substituições adequadas para não ultrapassar a quantidade diária e por refeições de carboidratos estabelecidas. Utilizando os manuais de contagem de carboidratos, aonde encontram-se as quantidades exatas por medidas caseiras e principalmente aprender a ler nos rótulos, ser capaz de fazer as contas para a ingestão proporcional da embalagem.

O quanto ele vai aplicar de insulina é calculado e orientado em parceria da nutricionista com o médico, para que se chegue ao Fator de Sensibilidade (usado para correção da glicemia) e o Bolus de Alimentação (quanto de carboidrato para cada unidade de insulina), para crianças por exemplo é um valor, para adolescentes outro e para adultos varia conforme o peso. Por isso, é bom deixar claro que não é sempre 1 unidade para cada 15g de carboidrato como às vezes é visto em alguns locais, mais uma vez enfatizo a necessidade da individualização.

Os alimentos por sua vez, contém uma quantidade de carboidratos por porção, que podem ser consultadas em tabelas, mas esta torna-se quase que flexível dependendo da hora do dia, da combinação do prato (por exemplo, pela quantidade de fibras na refeição) se o paciente irá ou não praticar alguma atividade física na sequência, por isso os ajustes são constantes.

A quantidade de insulina deve ser calculada com o objetivo de evitar que o paciente entre em hipoglicemia (glicemia < 70mg/dL), ou mesmo não conseguir controlar a hiperglicemia e esta manter-se muito elevada, podendo até ocasionar uma cetoacidose.

Sendo feita da maneira adequada, a contagem de carboidrato é mais um instrumento para que o diabético tenha uma vida normal e que a criança diabética seja inserida no contexto social da maneira mais natural possível.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Texto elaborado por: Nicole Trevisan
Nutricionista CRN3 33698
Educadora em Diabetes pela SBD/IDF
Mestranda em ciências pela Faculdade de Medicina da USP
Nutricionista na ADJ Diabetes Brasil em atendimento e curso de contagem de carboidratos

Referências Bibliográficas:

Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (2013-2014).