quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Resistência Insulínica

 


Insulina é um hormônio composto por 51 aminoácidos, secretado pelas células β do pâncreas. A insulina desempenha papéis importantes na homeostase (estado de equilibro) da glicose, crescimento celular e metabolismo geral. A descoberta da insulina há 100 anos, em 1921, também levou ao achado de outro hormônio pancreático, o glucagon. A insulina interage com glucagon para modular o teor de glicose no sangue - insulina age por via anabólica, enquanto glucagon executa funções catabólicas. A insulina regula os níveis de glicose através do seu armazenamento no fígado, músculos e tecido adiposo, podendo resultar em ganho geral de peso se houver um excesso de oferta de glicose (açúcar, carboidratos simples). A modulação de uma ampla gama de sistemas fisiológicos pela insulina torna sua síntese e níveis sanguíneos cruciais no início e na progressão de várias doenças crônicas.

 

As múltiplas funções da insulina

A mais conhecida função da insulina é a regulação da glicose. O metabolismo da glicose é desencadeado pela ingestão de alimentos que, após a digestão, elevam o açúcar no sangue. Para levar os níveis de glicose sanguínea de volta ao normal (70 a 100 mg/dl) há aumento simultâneo da produção de insulina e diminuição da secreção de glucagon. Após ser liberada, a insulina circula e chega às células do fígado, e estas armazenam a glicose excedente em forma de glicogênio. Células musculares esqueléticas e células de gordura são os outros principais alvos da insulina circulante, e também captam a glicose reduzindo o nível no sangue para a linha basal.

 

Síntese de proteína, glicogênese e lipogênese

A insulina desencadeia a absorção de glicose, síntese de proteína muscular esquelética, glicogênese (síntese de glicogênio) e lipogênese (síntese de ácidos graxos e triglicerídeos) através de receptores. Estes receptores são ativados e ‘acordam’ várias proteínas intracelulares que, por sua vez, regulam as atividades metabólicas da insulina, como crescimento celular e expressão genética. Na deficiência de insulina é impossível para as células usar a glicose como fonte de energia, e assim a concentração no sangue se eleva. A hiperglicemia prolongada leva ao diabetes tipo 2 e pode causar várias complicações de saúde, como danos no sistema nervoso, circulatório, renal.

 

Ações da insulina no corpo.        

A principal ação da insulina é regular o fornecimento de energia ao corpo equilibrando os níveis de micronutrientes após a ingestão de alimentos. Insulina é fundamental para o transporte de glicose para células/tecidos dependentes deste hormônio, como fígado, músculo e tecido adiposo. A insulina regula a glicemia dependendo de jejum, alimentação, atividades diárias, trabalho físico e mental: para cima através da utilização veloz da glicose armazenada no fígado, para baixo pela absorção acelerada de glicose circulante pelo tecido adiposo e músculo esquelético. Ela ajuda no ganho de massa muscular e, infelizmente, também no ganho de massa gorda.

 

Insulina e fígado

O fígado é o órgão primário da ação da insulina. Entre as muitas funções da insulina está o equilíbrio da glicemia, ou seja, sintetizando glicogênio a partir da glicose e convertendo o excedente em ácidos graxos e triglicerídeos. Por isso, o consumo excessivo de carboidratos pode levar ao acúmulo de gordura no fígado (esteatose hepática).

 

Insulina e músculos

O músculo esquelético é um dos tecidos mais dinâmicos do corpo humano, e representa quase metade do peso corporal. Cerca de 70% da glicose é usada pelo tecido muscular: a hiperglicemia após uma refeição incentiva o pâncreas a secretar insulina, comandando a absorção e a utilização da glicose pelos músculos.

 

Insulina e tecido adiposo

O organismo precisa de energia para sobreviver e evoluiu para armazenar energia extra quando há abundância de alimentos. Trata-se de uma importante adaptação fisiológica que aumenta as chances de sobrevivência durante os tempos de fome. A insulina faz as células adiposas armazenarem energia extra (calorias) em forma de gordura. É interessante notar que o tecido adiposo é encontrado em todas as partes do corpo. Qualquer desequilíbrio no fornecimento de energia (comida) resulta na quebra de gorduras armazenadas no tecido adiposo, por isso emagrecemos quando comemos pouco.

 

O que é resistência à insulina?                                           

Resistência insulínica define a perda da capacidade das células do corpo de responder ao comando da insulina. Apesar de haver um nível suficiente de insulina, as células do fígado, músculos e tecido adiposo não conseguem absorver a glicose que circula no sangue, e assim a glicemia se eleva além do valor normal, resultando em efeitos adversos à saúde. A resistência à insulina causa aumento de triglicerídios (um tipo de gordura composta por três moléculas de glicose) na corrente sanguínea, alterando ainda mais a sensibilidade à insulina.

 

Porta, fechadura e chave

Podemos pensar na resistência à insulina com uma analogia de porta, fechadura e chave. A glicose circulando no sangue está tentando passar pela ‘porta’, representada pela membrana que envolve as células. Em cada uma dessas células temos ‘fechaduras’, os receptores celulares. Para entrar nas células, a glicose precisa da ‘chave’ para abrir a porta - insulina é a chave. Quando as chaves e fechaduras estão funcionando bem, as portas se abrem, a glicose entra nas células e os níveis no sangue ficam normais. Quando temos a chave (insulina), mas o buraco da fechadura está bloqueado, a chave não funciona e a glicose não consegue entrar – aí temos a resistência insulínica. Há insulina disponível, mas ela não é capaz de abrir a porta porque os receptores celulares não estão receptivos.

 

Excesso de comida

Neste caso, o pâncreas precisa fazer hora extra e secretar mais insulina para compensar o problema, assim os níveis de insulina em jejum permanecem elevados, caracterizando o diagnóstico de resistência insulínica - muita insulina circulando no sangue. Alguns fatores podem prejudicar a sensibilidade à insulina, porém uma superalimentação contínua, ou seja, comer muito mais do que o organismo precisa, cria um ciclo vicioso de hiperinsulinemia e resistência à insulina, que culmina em eventual falha das células β do pâncreas, levando ao diabetes tipo 2.

 

Problema evolutivo

Todos os seres vivos precisam comer. Essa característica representou um grande desafio durante o período evolucionário, através das eras. As fontes de nutrientes eram escassas e as demandas calóricas mudavam constantemente (clima, caçadas, deslocamentos por grandes distâncias). Os animais, incluindo a raça humana, resolveram esse problema desenvolvendo mecanismos para promover o anabolismo (armazenamento de energia) quando o fornecimento de calorias excedia as necessidades, e facilmente se tornavam catabólicos (uso da energia estocada) quando as demandas não podiam ser atendidas com a alimentação.

 

Abundância X escassez

Na época de ‘vacas gordas’ o ser humano armazenava gordura corporal; no tempo de ‘vacas magras’ essa gordura era queimada para fornecer energia. A secreção e ação da insulina permitiam uma solução para este problema central (muita comida X pouca comida). Após o consumo de alimentos, a insulina promove a absorção de carboidratos nos principais locais de armazenamento (fígado, músculos e tecido adiposo) e converte carboidratos e proteínas em lipídios, permitindo um estoque mais eficiente de calorias – isso pode significar ganho de peso.

 

Resistência insulínica, obesidade e doenças modernas

Embora essa capacidade de armazenar energia dietética para tempos difíceis tenha apoiado o desenvolvimento da vida animal por milhões de anos, ela recentemente deu errado para os seres humanos. Em um tempo notavelmente curto, alteramos um ambiente de escassez calórica e alta demanda de energia para outro com abundante oferta calórica e pouca demanda de energia. No mundo atual a obesidade é endêmica e as sociedades estão lutando contra a crescente prevalência de doenças associadas à obesidade, como síndrome metabólica, fígado gorduroso, diabetes, doenças cardíacas. A resistência à insulina é a razão principal para muitas das doenças modernas.

 

Texto elaborado por: Dra. Tamara Mazaracki. 

 

Título de Especialista em Nutrologia –  Associação Brasileira de Nutrologia;

 

Membro Titular da ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia;

 

Pós-graduação em Medicina Ortomolecular, Nutrição Celular e Longevidade – FACIS-IBEHE – Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo e Centro de Ensino Superior de Homeopatia;

 

Pós-graduação em Medicina Estética – Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino – IBRAPE.

 

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizada única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

*Int. J. Molecular Science 2021. Role of Insulin in Health & Disease: An Update.

*Diabetologia 2020. The making of insulin in health & disease.

*J Clinical Investigation 2021. Insulin signaling in health & disease.

*Physiology Reviews 2018. Mechanisms of Insulin Action & Insulin Resistance.

*J Res Medical Science 2021. Skin & metabolic syndrome: A review of the possible associations.

*Int J Molecular Science 2021. Role of Insulin Resistance in MAFLD.

*Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases 2019. Carbohydrate intake & risk of metabolic syndrome: A dose-response meta-analysis.

 

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Fibras Alimentares: Por que Incluí-las na Dieta?

 


Uma alimentação rica em fibras é constantemente associada ao bom funcionamento digestivo. Mas o seu valor não para por aí: o consumo de fibras alimentares também está ligado a níveis de colesterol mais baixos, menor incidência de câncer, controle do diabetes e a regulação da microbiota intestinal.

Apesar da longa lista de benefícios, a baixa frequência no consumo durante o dia é o principal obstáculo para os brasileiros obterem a quantidade mínima de fibras recomendadas por dia (aproximadamente 25g segundo a Organização Mundial da Saúde).

O que são fibras alimentares?

As fibras alimentares são compostos vegetais resistentes à digestão e à absorção do organismo humano. Isso significa que elas chegam ao intestino inalteradas.

É no intestino grosso, onde sofrem uma fermentação total ou parcial pelas bactérias intestinais, que seu benefício aparece: nessa fase são produzidos subprodutos, como os ácidos graxos de cadeia curta, que auxiliam na redução das taxas de gordura no sangue e no diabetes.

As fibras são divididas em dois grupos, as insolúveis e as solúveis em água. As fibras insolúveis são responsáveis por reter uma quantidade maior de água e ajudar o intestino a funcionar melhor, produzindo fezes mais macias e com mais volume.

Já as fibras solúveis permanecem mais tempo no estômago e promovem a sensação de saciedade. Elas também possuem a capacidade de se ligar a moléculas de gordura e de açúcar, eliminando-as pelas fezes e ajudando a reduzir os níveis de colesterol e glicemia do sangue.

Onde encontrar fibras alimentares?

Para aumentar o consumo de fibras, o primeiro passo é ingerir mais frutas e legumes com casca, incluindo também mais cereais e hortaliças na dieta.

É importante incrementar o consumo de fibras de forma gradativa e acompanhando a ingestão de água, para evitar cólicas abdominais e constipações.

Benefícios de incluir fibras alimentares na sua dieta

Além do bom funcionamento do organismo ligado à saúde intestinal, de acordo com a OMS, a cada oito gramas a mais de fibras alimentares ingeridas por dia há uma redução de 5% a 27% do risco de desenvolvimento de doenças coronarianas, diabetes tipo 2 e câncer no colo retal.

Estudos também demonstraram que, aliada à prática de exercício físico, as fibras podem prevenir ou retardar o Diabetes Mellitus tipo 2, contribuir no controle de peso e reduzir o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

 

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

 

Referência Bibliográfica:

Fibras alimentares: por que incluí-las na dieta?. ProDiet Nutrição Clínica. Disponível em: www.prodiet.com.br Acessado em: 10/08/2021.

domingo, 8 de agosto de 2021

Hipercolesterolemia

 


Colesterol é um elemento lipídico (gordura) existente em nosso organismo, tido como vilão da alimentação, mas fundamental para garantir a vida. O corpo precisa dele para produzir hormônios sexuais, bile, vitamina D, membranas celulares e a bainha dos nervos. A maior parte do colesterol que precisamos é produzido pelo nosso organismo e o restante conseguimos através da alimentação, vinda de alimentos de origem animal, como carnes, leite e derivados integrais, ovos e etc.

Quem transporta o colesterol pela corrente sanguínea são as chamadas lipoproteínas. As LDLs (lipoproteínas de baixa densidade) são conhecidas como o colesterol "ruim" porque depositam o colesterol nas paredes das artérias, possibilitando o surgimento de aterosclerose e criando um risco maior de doenças do coração. Já as HDLs (lipoproteínas de alta densidade) removem o colesterol das paredes das artérias e de outros tecidos, levando-o para o fígado onde será metabolizado para ser eliminado do corpo. Por este motivo são conhecidas como o colesterol "bom". Os níveis de HDL devem estar acima 60mg/dl e os, de LDL abaixo de 130mg/dl para não aumentar o risco de doenças cardiovasculares, que já são a principal a causa de morte em todo o mundo. Exames frequentes devem ser realizados para que haja controle dos níveis destas lipoproteínas no organismo e medidas preventivas sejam tomadas.

Exercitar-se regularmente, manter o peso ideal e controlar o nível de estresse são medidas que podem reduzir os colesterol ou melhorar a relação LDL / HDL. Se as mudanças na alimentação e no estilo de vida não conseguirem reduzir o colesterol no sangue, deve-se recorrer à prescrição de medicamentos.



Dicas Nutricionais:

 

Evite o consumo exagerado de alimentos ricos em gordura saturada, principal vilão no aumento de LDL. Ela está nas carnes vermelhas, leite e derivados integrais, manteiga, creme de leite, biscoitos, embutidos gordos e etc.;

Evite totalmente o consumo de alimentos que contenham gorduras trans. Muitos estudos sugerem que esse tipo de gordura seja pior que a gordura saturada, pois além de aumentar o LDL, pode baixar o HDL. A gordura trans está presente na gordura vegetal hidrogenada, em alguns tipos de margarina, nos biscoitos, nos salgadinhos industrializados e em alguns produtos de panificação. 
 
Procure realizar atividades aeróbicas para aumentar o HDL. 
 
Consuma alimentos com alto teor de ácidos graxos monoinsaturados, como azeite de oliva, amêndoas, abacate e peixes gordurosos como salmão e anchova, que ajudam a aumentar os níveis de HDL no organismo; 
 

 
 
Há evidências que o consumo moderado de vinho ajude a baixar os níveis de LDL e aumentar de HDL, mas consuma até 1 taça por dia, quando este não for prejudicial a alguma outra disfunção; 
 
Inclua molho de tomate natural em sua alimentação, que é rico em licopeno, substância que também auxilia na prevenção de aterosclerose; 
 
Consuma alimentos ricos em fibras, que também auxiliam a remoção de LDL na corrente sanguínea. Elas estão presentes nas frutas e vegetais crus e grãos integrais (pão integral, arroz integral, etc.).
 
 

Texto elaborado por: Patrícia Bertolucci

 

Nutricionista pela Universidade Federal de Goiás – UFG.

 

Assessoria a Clubes e Empresas ligadas ao esporte ou com interesse em qualidade de vida.

 

Responsável pela empresa Patrícia Bertolucci Consultoria em Nutrição.

 

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.