quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Câncer de Próstata e Fatores Nutricionais

O câncer de próstata (CaP) permanece como uma das neoplasias mais prevalentes no mundo, sendo, em muitos países, a principal causa de morte por câncer entre homens. Fatores de risco para o desenvolvimento desta doença são idade, herança genética e raça negra. Fatores nutricionais também podem contribuir para o desenvolvimento de câncer de próstata. O objetivo deste estudo é revisar os principais artigos que descrevem a importância dos hábitos nutricionais, seu impacto na obesidade, e da suplementação alimentar relacionados à gênese ou à prevenção do câncer de próstata.

OBESIDADE

         O tratamento da obesidade, através da diminuição da ingestão de gorduras associada à prática de exercícios físicos, demonstrou reduzir o estresse oxidativo, sugerindo ser um importante fator na redução dos riscos de desenvolvimento de CaP. (9)

Apesar de não haver comprovação, a obesidade parece ser um fator de confusão no diagnóstico do CaP. Como há uma relação inversa entre os níveis de andrógenos circulantes e obesidade, homens obesos tendem a desenvolver menos tumores, mas com formas mais agressivas (10).

CONSUMO DE ÁLCOOL

        Em 1998, Breslow e Weed, em estudo prospectivo, demonstraram não haver aumento no risco de CaP entre bebedores leves-moderados (11). Em 2001, Sesso et al. através de um estudo de coorte relataram um aumento (risco relativo de 1,85) na incidência de CaP em homens com ingesta superior a três doses diárias de destilados por onze anos ou mais. Não houve associação com a ingesta de vinho ou cerveja (12). Por outro lado, em 2005, Schoonen et al. descreveram uma diminuição de 18% no risco de CaP nos homens que ingeriam de uma a três taças de vinho por semana (13).

LEPTINA

      A leptina mostrou-se capaz de estimular uma linhagem celular independente de andrógenos e ligada ao câncer de próstata (DU45 e PC-3) (14,15).

Apesar da associação entre os níveis circulatórios de leptina e o risco de câncer de próstata não ser consistente, um desequilíbrio calórico-energético, talvez mediado pela leptina, surge como possível fator contribuinte para a progressão do câncer de próstata (metástases e morte).

VITAMINA D

       Observações epidemiológicas que ligam à deficiência de vitamina D ao câncer de próstata são (16):

- Homens com menor exposição solar apresentam maiores taxas de mortalidade pelo CaP;

- O CaP ocorre mais frequentemente em homens idosos, nos quais a deficiência de vitamina D é mais prevalente;

       -   Afrodescendentes, nos quais a melanina da pele bloqueia a radiação ultravioleta e inibe a conversão da vitamina D para sua forma ativa, apresentam as maiores taxas de incidência e mortalidade por câncer de próstata;

         - Dietas ricas em cálcio – que diminuem os níveis de vitamina D – estão associadas a maior risco de câncer de próstata;

       - Japoneses nativos, com dieta rica em vitamina D derivada dos peixes, têm menor incidência de CaP.

         Mesmo com os dados apresentados acima, estudos científicos demonstraram pouca ou nenhuma associação entre CaP e níveis de vitamina D.

SELÊNIO

          A maior evidência do fator de proteção trazido pelo selênio vem do Estudo Nutricional de Prevenção do Câncer. Neste trabalho, controlado por placebo, em 1312 homens, a ingestão diária de 200 µg de selênio, com um seguimento médio de 4,5 anos, reduziu em dois terços a incidência de CaP (18).  Em 2003, Duffield-Lillico et al. apresentaram dados atualizados e com maior seguimento, confirmando a diminuição na incidência da doença (19).

VITAMINA E

   A vitamina E é uma família de componentes vitamínicos essenciais, lipossolúveis que atuam como maior anti-oxidante lipossolúvel na membrana celular. A forma mais ativa e abundante da vitamina E é o α-tocoferol.

     O estudo de prevenção do câncer com alfa-tocoferol e betacaroteno demonstrou redução de 32% na incidência de câncer de próstata e 41% na mortalidade nos homens que receberam α-tocoferol (50mg/dia)(20).

   Em 2008, após um seguimento médio de 5,5 anos, Lippmann et al. apresentaram os resultados finais do estudo SELECT (Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial). Após dados preliminares de outros estudos sugerirem um fator protetor, este estudo randomizado, controlado por placebo, multicêntrico comprovou em 35.533 homens não haver nenhum impacto da suplementação de selênio, vitamina E ou ambos na prevenção do câncer de próstata (21).  Dados atualizados do estudo SELECT, publicados em 2011, demonstraram que no grupo que recebera somente vitamina E por 5,5 anos, foi encontrado um aumento de 17% no risco de desenvolvimento de CaP, comparado ao grupo que recebeu placebo pelo mesmo período (22).

LICOPENO

        O licopeno é um membro da família carotenoide, encontrado principalmente no tomate e seus derivados. Melancia, mamão e damasco também contêm quantidades variáveis de licopeno. É esta substância que fornece a esses frutos sua cor vermelha característica (23)

      O papel do licopeno no CaP permanece controverso. Em meta-análise publicada em 2004, a ingestão frequente de tomate diminuiu o risco de desenvolvimento de CaP de 3% até  22%  (24).  Estudo recente de Zu et al avaliou, através de questionários aplicados a 49.898 homens entre 1986 e 2010, a redução do risco de CaP. Mesmo com problemas em sua metodologia, o estudo demonstrou uma redução de risco no desenvolvimento de câncer de próstata letal em homens que apresentavam ingestão diária de licopeno desde a idade jovem (25).  A grande dificuldade destes estudos foi quantificar de maneira confiável a quantidade de licopeno ingerido e por qual período.

CONCLUSÃO
           
    O câncer de próstata, por sua crescente prevalência e incidência, com importante impacto na morbidade e mortalidade masculina, justifica o investimento em novos estudos que possam trazer respostas mais consistentes. Atualmente há pouco ou nenhum embasamento científico capaz de introduzir medidas nutricionais preventivas. Até o momento, a obesidade permanece como fator nutricional mais importante na história natural do câncer de próstata.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Texto elaborado por: Milene Preto Kern

Nutricionista formada pela UNISINOS (Universidade do Vale dos Sinos, RS)
Pós-Graduada em Nutrição Clínica Personalizada pelo IPGS (Instituto de Pesquisas, Ensino e Gestão em Saúde).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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