segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Terapia Nutricional na Síndrome da Imunodeficiência Adquirida

        O estado nutricional do paciente com HIV/AIDS adquiriu importância na prática clínica devido à desnutrição e aos efeitos colaterais da terapia antirretroviral. Mesmo na era HAART (terapia antirretroviral de alta eficácia/highly active antirretroviral therapy), não é pequeno o número de pacientes com perda de peso corporal e alterações importantes de composição corporal. Assim, recomenda-se atuar de imediato em qualquer indivíduo HIV+, assintomático ou na vigência de AIDS, que tenha perda de peso.

            Em pacientes com infecção pelo HIV, a perda de peso, particularmente perda da massa celular metabolicamente ativa, está associada a aumento de mortalidade, aceleração da progressão da doença, perda de massa corporal magra, diminuição da força muscular e piora do estado funcional.

            A infecção por HIV pode causar desnutrição por uma variedade de mecanismos, como invasão das células gliais do sistema nervoso central, levando a demência ou a neuropatia. Estas interferem com a ingestão alimentar via anorexia e disfagia. Podem também ocorrer lesões anatômicas, como monilíase oral, que dificulta a mastigação, além de esofagites ou monilíase esofágica e, ainda pode haver infecção da mucosa intestinal causada por agentes oportunistas, como E. coli e C. difficile, diminuindo a absorção de nutrientes e provocando diarreia.

      A desnutrição em pacientes com AIDS, conhecida como Wasting Syndrome (Síndrome Consumptiva), é caracterizada pela perda de peso involuntária maior que 10%. Em geral, está associada à febre documentada por mais de 30 dias, fraqueza e diarreia (> 2 evacuações/dia por mais que 30 dias). Há associação com aumento da morbidade e da mortalidade e, maior susceptibilidade a infecções oportunistas e tumores. 

             Uma alimentação saudável aumenta a resistência à aids, fornecendo energia para as atividades diárias e, também, vitaminas e minerais que o organismo precisa. Além de tornar a pessoa mais disposta, uma alimentação equilibrada fortalece o sistema de defesa, ajuda no controle das gorduras e açúcares do sangue, a absorção intestinal e melhora os resultados do tratamento.

             A alimentação saudável é aquela que tem todos os alimentos necessários, de forma variada e equilibrada. Para se ter uma alimentação saudável, o ser humano precisa consumir alimentos de todos os três grupos:


Carboidratos: Fornecem a energia necessária para as atividades do dia a dia, como andar, falar, respirar etc. Encontrados em: arroz, açúcar, massas, batata, mandioca, cereais, farinhas e pães.

Proteínas: Todos os tecidos do corpo são formados por elas. São as principais componentes dos anticorpos e dos músculos. Constroem, “consertam” e mantêm o corpo, além de aumentarem a resistência do organismo às infecções. Encontradas em: carnes bovinas, suína, frango, peixes, miúdos, ovos, leite, iogurtes e queijos (animais) e feijão, soja e derivados, castanhas, amendoim, amêndoa (vegetais).

Gorduras: Fornecem energia. O organismo precisa delas em pequenas quantidades. Algumas vitaminas usam-nas para serem transportadas no organismo, assim como alguns medicamentos antirretrovirais também. Encontrados em: manteiga, óleos, azeite de oliva, margarina, gordura animal (presente nas carnes).

  O ideal é fazer três refeições principais por dia, com dois ou três lanches nos intervalos. A alimentação deve ser balanceada, variada, dando preferência aos alimentos não industrializados, sempre respeitando as características e hábitos de cada um. Deve ser priorizado o consumo diário de frutas, verduras, legumes, alimentos integrais e carnes magras. Frituras, gorduras e açúcares devem ser diminuídos ou evitados.

            Suplementos orais estão indicados quando o paciente se alimenta por via oral, mas não o suficiente para manter suas necessidades energéticas. A suplementação oral também é benéfica em períodos de maior necessidade energética, quando o metabolismo basal está aumentado, como, por exemplo, em episódios de algumas infecções oportunistas. A via enteral deve ser considerada sempre que a alimentação oral estiver insuficiente. A nutrição parenteral está indicada na falência da via enteral, como em casos de diarreia intratável, obstrução intestinal e/ou vômitos inevitáveis. No entanto, o uso de nutrição parenteral em pacientes HIV+ deve ser monitorado com cuidado, já que a incidência de infecção do cateter venoso central é maior do que na população em geral, e suas consequências também poderão adquirir dimensões indesejáveis devido à imunossupressão.

            A terapia nutricional está indicada quando o paciente apresenta significante perda de peso (> 5% em três meses ou depleção da massa celular corporal (> 5% em três meses). A terapia nutricional deve ser também considerada em pacientes com IMC < 18kg/m².

            Na fase estável da doença, a necessidade proteica deve ser de 1,2g/kg de peso atual/dia. Na fase aguda, a necessidade de proteínas aumenta para 1,5g/kg de peso atual/dia.

             A necessidade energética para pacientes assintomáticos é de 30-35kcal/kg/dia. Em paciente sintomático com a doença propriamente dita – AIDS e CD4 inferior a 200 células, a necessidade é de 40kcal/kg/dia.

            Há necessidades especiais de micronutrientes: vitaminas A, B, C, E, zinco e selênio que não devem ser inferiores a 100% das DRIS.

            Ainda falta evidência clínica mais conclusiva quanto aos benefícios da utilização de fórmulas suplementadas com nutrientes específicos para o paciente com HIV/AIDS, provavelmente devido a limitações relacionadas aos aspectos éticos e metodológicos. Apenas um estudo demonstrou que a suplementação oral com 30g de glutamina por um mês reduziu a gravidade da diarreia associada ao uso de inibidor de protease (nelfinavir) e melhorou a qualidade de vida desses pacientes. No entanto, os resultados não evidenciaram efeito significativo do tratamento quanto a melhora da composição corporal, aumento dos níveis das células CD4 e redução da carga viral.

         A terapia nutricional com probióticos está indicada para o paciente pediátrico com HIV, principalmente quando ocorre disfunção intestinal e redução dos linfócitos T CD4.

          Alguns trabalhos têm estudado o efeito da suplementação de ácidos graxos ômega-3 nas complicações metabólicas presentes em pacientes em tratamento com drogas antirretrovirais. A suplementação com ácido graxo ômega-3 resultou em significativa redução nos níveis séricos de triglicerídeos.

          Suplementação com ácido graxo ômega-3 reduz drasticamente triglicerídeos séricos, ácido araquidônico na fração fosfolípide e parece diminuir a lipogênese associada com a síndrome metabólica.

Cuidado com os alimentos

Um grande problema para os soropositivos são as doenças provocadas por alimentos contaminados, que podem causar vômitos, diarreias ou mesmo infecção intestinal. Alguns cuidados e dicas com os alimentos:

● Antes de cozinhar, lavar bem as mãos e os utensílios que forem usados;

● Copos ou pratos rachados não devem ser usados, pois os germes se acumulam nas rachaduras;

● O lixo deve estar sempre tampado e longe dos alimentos;

● Manter os alimentos fora do alcance dos insetos, roedores e outros animais. Cobrir ou guardar em vasilhas bem fechadas;

● Não consumir alimentos com alterações de cor ou cheiro;

● Descongelar as carnes na geladeira e não em temperatura ambiente. Evitar comer carne crua;

● O leite pasteurizado deve ser mantido na geladeira depois de aberto e a atenção na validade deve ser constante. Se não for pasteurizado, recomenda-se ferver antes de beber;

● Evitar comer ovos crus. Cozinhar até ficarem duros (6 a 8 minutos de fervura) ou fritar até a gema ficar dura;

● Cortar a carne e os vegetais em tábuas de plástico ou vidro e depois lavar. Evitar a tábua de madeira, pois acumulam muitos germes e bactérias.


As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizada única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:
Alimentação na AIDS. Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Disponível em: www.aids.gov.br Acessado em: 10/11/2014.

Coppini, LZC; Jesus, RP. Projeto Diretrizes: Terapia Nutricional na Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV/AIDS), 2011. Sociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral e Associação Brasileira de Nutrologia.
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