quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Síndrome do Comer Noturno



'          O comportamento alimentar é complexo, envolvendo aspectos metabólicos, fisiológicos e ambientais, que apresentam ritmicidade circadiana, herdada e espécie específica, sendo a humana essencialmente diurna. Está sincronizado ao claro/escuro e aos níveis de cortisol, serotonina, leptina, citocinas, entre outros. Além disso, o ritmo social imprime marcado efeito na regulação da alimentação, pois a sociedade contemporânea funciona 24h e seu impacto na quantidade, qualidade e horários da alimentação tem sido inflexível. A observação do comportamento alimentar induziu a definição de uma síndrome denominada Síndrome do Comer Noturno (SNC), caracterizada por um atraso circardiano do padrão alimentar, mediado por alterações neuroendrócrinas.

               A primeira descrição da SCN revelava uma população de obesos que apresentava redução do apetite pela manhã, hiperfagia (fome excessiva) noturna e insônia inicial ou dificuldade de reiniciar o sono após despertares noturnos. Também se observou que os sintomas pioravam em situações de estresse e provavelmente melhoravam com a retirada do indivíduo do ambiente estressor.

            Um estudo realizado em 1999 por Birkedvedt contribuiu para que o quadro psicopatológico presente na SCN fosse mais bem sistematizado. Observou ele que o início do comer noturno acontece após a última refeição do dia, o jantar, e sugeriu os seguintes critérios diagnósticos para a SCN:

1) Anorexia pela manhã, ainda que a pessoa se alimente no café da manhã.

2) Hiperfagia à noite; pelo menos 50% do consumo calórico diário ocorre após a última refeição do dia.

3) Pelo menos um despertar à noite.

4) Esses critérios são preenchidos por pelo menos 3 meses.

5) A pessoa não apresenta bulimia nervosa nem transtorno do comer compulsivo.

Aspectos Comportamentais e Padrão Alimentar

            O padrão alimentar é caracterizado por ingestão alimentar que acontece antes do paciente deitar-se ou nos períodos em que desperta de seu sono. Birkedvedt observou que indivíduos com síndrome do comer noturno acordam em média 3 a 4 vezes durante a noite e que 52% dos despertares se associam com consumo alimentar.

            Os alimentos são ingeridos em grande quantidade de 2 formas distintas: em um episódio de compulsão alimentar, e nesse caso a ingestão alimentar pode ocorrer antes do início do sono e se associa à dificuldade para que se comece a dormir; ou, mais frequentemente, em “beliscadas”, em que o indivíduo acorda muitas vezes durante a noite para comer.

            O indivíduo com a SCN experimenta a sensação de falta de controle em relação à comida: a primeira “beliscada” é capaz de desencadear um processo de “comilança” durante toda a madrugada. Por um lado, o comportamento poderia aliviar a ansiedade ou a depressão, mas, por outro, após beliscadas sucessivas ou em seguida aos episódios de compulsão alimentar, o paciente se sente culpado e inferiorizado. O hábito de comer sozinho, escondido de familiares ou amigos, é comum em comedores noturnos. Além da anorexia pela manhã, a alimentação durante o dia é, em geral, restritiva e se associa com irritabilidade, ansiedade, fadiga e fraqueza que pioram no final do dia.

            Estima-se que a prevalência da SCN é de 1,5% da população geral, podendo atingir taxas mais elevadas em população de obesos, sendo que estas taxas podem atingir até 27% em obesos grau III.

Aspectos Neuroendócrinos

             A característica neuroendócrina da SCN é referida como alteração no ritmo circadiano em razão da atenuação no nível plasmático de melatonina e leptina, junto a secreção aumentada de cortisol, durante a noite.

           Baixos níveis de melatonina estão relacionados com insônia e depressão, e podem contribuir para humor deprimido, irritabilidade e baixa auto-estima, presentes em comedores noturnos. Níveis atenuados de leptina durante a noite podem justificar a não-supressão do apetite noturno.

          Em relação aos níveis altos de cortisol, pode-se considerar a hipótese clínica de que essas pessoas manifestam uma resposta específica às situações de estresse. Birkedvedt também demonstrou, em estudo posterior, que comedores noturnos, quando estimulados com hormônio liberador de corticotropina (substância que se eleva em situações de estresse), apresentam distúrbio na resposta do eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal.

Tratamento

O tratamento da SCN pode envolver intervenções farmacológicas e comportamentais. Na seleção da técnica, devem-se comparar os parâmetros de eficácia e efetividade.

No tratamento da SCN é comum o uso de fitoterápicos, como exemplo a Kavain. Entra nesse espectro a melatonina, especialmente porque, em muitos países, incluindo os EUA, está classificada como suplemento alimentar e não como fármaco. Por conseguinte, essas intervenções ainda não foram estudadas de forma sistematizada, sendo então classificadas como intervenções cuja eficácia é desconhecida.

As intervenções cognitivo-comportamentais têm sido frequentemente mencionadas como parte do tratamento da SCN. No entanto, ainda faltam estudos comparativos com metodologia apropriada para avaliar o nível de eficácia das intervenções, para definir nível de evidência e grau de recomendação.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

Claudino, DA. Síndrome do Comer Noturno. In Claudino, AM; Zanella, MT. Guias de medicina ambulatorial e hospitalar UNIFESP/ Escola Paulista de Medicina - Transtornos Alimentares e Obesidade. 1 ed. Baureri: Manole. 2005. p.105-109.

Harb, ABC. Síndrome do Comer Noturno – Formas de Aferição. [Dissertação de Mestrado]. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, 2008.

Harb, ABC; Caumo, W; Raupp, P; Hidalgo, MPL. Síndrome do Comer Noturno: aspectos conceituais, epidemiológicos, diagnósticos e terapêuticos. Rev Nutr 2010; vol.23, n.1, p. 127-136.

Pisciolaro, F; Azevedo, AP. Transtornos Alimentares e Obesidade. In: Alvarenga, MS; Scagliusi, FB; Philippi, ST. Nutrição e transtornos alimentares: Avaliação e tratamento. 1 ed. São Paulo: Manole, 2011. p.85-98.
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