sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Fenilcetonúria

A fenilcetonúria ou PKU, como é mundialmente conhecida, é uma doença genética, causada por uma mutação no gene que codifica a enzima fenilalanina-hidroxilase, ativa no fígado e responsável pela transformação do aminoácido fenilalanina (PHE) em tirosina. A elevação de fenilalanina no sangue, acima de 10mg/dl, permite a passagem em quantidade excessiva para o Sistema Nervoso Central, no qual o acumulo tem efeito tóxico. O retardo mental é a mais importante sequela dessa doença.

Quadro 1. Classificação das Hiperfenilalaninemias por Deficiência de Fenilalanina-hidroxilase.

Denominação
Atividade Enzimática
Concentração de Fenilalanina no plasma*
Fenilcetonúria Moderada ou Grave (Clássica)
< 1%
> 20mg/100ml
Fenilcetonúria Leve
1 a 3%
10 a 20mg/100ml
Hiperfenilalaninemia Benigna
> 3%
04 a 10mg/100ml
* Valor de referência normal até 4mg/100ml.
Fonte: Turcato, MF.


      Os portadores de fenilcetonúria não apresentam sintomas ao nascer. Não há anormalidades aparentes ao nascimento, pois o fígado materno protege o feto. Os níveis sanguíneos de fenilalanina do recém-nascido fenilcetonúrico aumentam nas primeiras semanas com alimentação proteica, incluindo o leite materno.

        As crianças não tratadas não conseguem atingir os marcos necessários iniciais de desenvolvimento, podendo apresentar comprometimento progressivo na função cerebral. Desenvolvem-se sintomas, como irritabilidade, dificuldade de aprendizado, falta de atenção, distúrbios comportamentais, hiperatividade e crises convulsivas entre os 6 e 18 meses de vida.

         A manifestação clínica mais grave é o retardo mental. Um paciente pode perder, em média, cinco unidades de Quociente de Inteligência (QI) a cada 10 semanas de atraso no tratamento.

          A fenilalanina em excesso, têm efeito tóxico nas funções somáticas e do sistema nervoso central, interferem na síntese proteica cerebral e mielinização, diminuem a formação de serotonina e alteram a concentração de aminoácidos no líquor. Essas alterações determinam a perda de funções, especialmente da capacidade intelectual do portador.

Outras anormalidades eletroencefalográficas; o odor "de rato" da pele, dos cabelos e da urina, devido ao acúmulo de fenilacetato; e a tendência à hipopigmentação e eczema, completam o quadro clínico. O cheiro característico, quando presente, impregna o local onde esteja internado um paciente com fenilcetonúria. Em contraste, as crianças acometidas, detectadas ao nascimento e tratadas imediatamente, em regra, não exibem quaisquer dessas anormalidades.

Exames e diagnósticos
O diagnóstico costuma ser feito ainda na maternidade, por meio do teste do pezinho, que, tanto em hospitais da rede pública quanto da privada, deve ser obrigatoriamente realizado para pesquisar, no sangue do recém-nascido com mais de 48 horas de vida, a fenilcetonúria e o hipotiroidismo.
O resultado positivo para fenilcetonúria requer confirmação por uma nova análise do sangue do bebê. Caso o diagnóstico seja feito mais tardiamente, outros métodos diagnósticos podem ser necessários para avaliar o comprometimento gerado pelo excesso de fenilalanina no organismo, tais como a ressonância magnética do encéfalo.
Tratamento
           Diversas mulheres com fenilcetonúria, e que foram tratadas desde a lactância, chegaram à idade adulta e engravidaram. Se os níveis de fenilalanina não forem estritamente controlados antes e no decorrer da gravidez, a criança estará sob o risco da fenilcetonúria materna. Ao nascimento, essas crianças apresentam microcefalia e risco aumentado de defeitos congênitos. A triagem neonatal permite o diagnóstico e tratamento precoce e, assim, o desenvolvimento de uma geração de mulheres intelectualmente normais e capazes de reproduzir.

Alimentos Permitidos
(zero a 20mg Phe/100g de alimento)
Alimentos com médio teor de fenilalanina
(10 - 20mg Phe/100g do alimento)
Alimentos Proibidos

Mel
Massas feitas sem ovos e com farinha de trigo de baixo teor de proteína
Carnes e derivados
Balas de frutas e de gomas
Arroz
Feijão
Pirulitos de frutas
Batata-inglesa
Ervilha
Picolés de frutas
Batata-doce
Soja
Algodão-doce
Batata-salsa
Grão-de-bico
Geleias de frutas
Mandioca
Lentilha
Goiabada
Cará
Amendoim
Farinha de tapioca
Abóbora
Leite e derivados
Polvilho de mandioca
Abobrinha
Achocolatado
Sagu
Berinjela
Ovos
Sucos de frutas artificiais
Beterraba
Nozes
Refrigerantes isentos de aspartame
Brócolis
Gelatinas
Groselha
Cenoura
Bolos
Café
Chuchu
Farinha de trigo
Chá
Couve-flor
Alimentos industrializados com alto teor de fenilalanina
Alguns cremes e pudins nos sabores baunilha, morango e caramelo
Jiló
Pães em geral
Pós para milk-shake isentos de Phe
Quiabo
Biscoitos

Tomate
Alimentos para fins especiais contendo aspartame

Pepino


Pimentão


Cebola


Folhosos


Frutas em geral.



Benvenutri.
Fonte: Adaptado de Monteiro & Cândido.

Por falta de maiores estudos, os requerimentos proteicos para os fenilcetonúricos seguem as recomendações propostas pela FAO/WHO, considerando-se a necessidade de ingestão de proteína igual à de indivíduos sadios (0,8-1,0g/kg).

            A baixa ingestão de proteínas de alto valor biológico e a predominância de alimentos de origem vegetal contendo fibras, fitatos, oxalatos e taninos, entre outros fatores, repercute diretamente na redução da biodisponibilidade de nutrientes como ferro, zinco, cálcio, selênio, vitaminas A, complexo B, D, entre outros.

            O zinco (Zn) é essencial para a função de mais de 70 enzimas diferentes. Assim, a biodisponibilidade do Zn é influenciada pela dieta rica em fibra e ácido fítico, pela presença de hemiceluloses, que aumentam a excreção de Zn fecal, por dietas ricas em ácidos graxos poliinsaturados, pelo excesso de aminoácidos livres e pelas interações entre Zn/Fe, Zn/Ca e Zn/P.

            Em pesquisa realizada com crianças fenilcetonúricas, demonstrou-se um decréscimo da densidade mineral óssea na espinha lombar e extremidades menores, e discute se a menor concentração de cálcio (Ca) e magnésio (Mg) séricos de crianças com PKU é devida ao tratamento e processo da doença ou à reduzida biodisponibilidade mineral.

            As necessidades de Fe aumentam na adolescência devido à demanda da expansão de massa muscular e volume sanguíneo.

            Investigando a quantidade de selênio (Se), verificaram que os valores de Se e a atividade da glutationa peroxidase no plasma e eritrócitos foram bem menores, quando comparados com os de crianças sadias. Nutrientes ricos em Se estão ligados a carnes, frutos do mar, ovos e alguns grãos, que não fazem parte da alimentação dos fenilcetonúricos devido ao alto teor de Phe. Conseqüentemente, a quantidade de Se diminui nos pacientes após o início da dietoterapia, reduzindo a atividade da glutationa peroxidase no eritrócito.

Deficiência de vitamina B12 também foi observada em adolescentes e adultos com PKU. A vitamina B12 é essencial para o crescimento dos tecidos, havendo maior necessidade durante a adolescência. A sua deficiência se manifesta por anemia megaloblástica e desordens neurológicas. As maiores fontes dessa vitamina são carnes, fígado, peixe, ovos, leite e derivados. Cereais, legumes e frutas não contêm vitamina B12. Logo, portadores de PKU têm grande propensão a essa deficiência, devido ao tratamento alimentar.

Observa-se também que, devido à reduzida ingestão de proteínas animais, crianças com PKU têm como conseqüência baixa ingestão de ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa, como ácido araquidônico, ácido eicosapentaenóico e ácido docosahexaenóico, encontrados somente em alimentos de origem animal. Esses ácidos graxos estão ligados quase que exclusivamente à síntese endógena de precursores como o ácido linoleico e a-linolênico. A redução ou não ingestão desses ácidos graxos faz com que esse mecanismo de síntese seja inadequado às necessidades fisiológicas das células e tecidos e tem por conseqüência implicações nas respostas inflamatórias, coagulativas e vasoativas, bem como sobre os processos homeostáticos.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.
Referências Bibliográficas:

Fenilcetonúria. Disponível em: www.fleury.com.br Acessado em: 22/01/2014.

Mira, NVM; Marquez, UML. Importância do diagnóstico e tratamento da fenilcetonúria. Rev Saúde Pública 2000; v.34, n.1: p. 86-96.

Monteiro, LTB; Cândido, LMB. Fenilcetonúria no Brasil: evolução e casos. Rev Nutr 2006; v.19, n.3: p. 381-387.


Turcato, MF. Erros Inatos do Metabolismo da Fenilalanina: Fenilcetonúria clássica e demais Hiperfenilalaninemias. Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto-USP. Disponível em: www.mp.fmrp.usp.br Acessado em: 22/01/2014.
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