quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Compostos Bioativos na Saúde




  A alimentação saudável envolve a escolha de alimentos não somente para manter o peso adequado, mais também para garantir uma saúde plena. Dessa forma, tem-se os compostos bioativos que são compostos extranutricionais que geralmente ocorrem em pequenas quantidades nos alimentos. Eles são bastante estudados por seus efeitos benéficos na promoção da saúde humana e devem ser consumidos preferencialmente por meio da alimentação habitual, principalmente pelo consumo de frutas e hortaliças. Uma ampla variedade de compostos bioativos é evidenciada e estudada como sendo a responsável pelos efeitos benéficos de uma alimentação rica em frutas e hortaliças.


            Estes compostos variam em estrutura química e nas funções biológicas. Entretanto, eles apresentam algumas características em comum: pertencem a alimentos do reino vegetal, são substâncias orgânicas, não são indispensáveis nem sintetizados pelo organismo humano e apresentam ação protetora na saúde humana quando presentes na alimentação em quantidades significativas. Essas substâncias exercem várias ações do ponto de vista biológico, como atividade antioxidante, modulação de enzimas de destoxificação, modulação do sistema imune, modulação genética, redução da agregação plaquetária, controle do metabolismo hormonal, redução da pressão sanguínea, entre outras atividades como antibacteriana e antiviral.

  Em estudos clínicos, em que a dieta foi suplementada com β-caroteno, vitamina C ou vitamina E, mostraram que essas substâncias, isoladas da matriz alimento, não foram eficazes na diminuição de risco à doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), indicando que fatores como a biodisponibilidade e a ação sinérgica, entre outros, atuam nesse processo. Na dieta habitual, alguns gramas de compostos bioativos diariamente são ingeridos. No entanto, as concentrações desses compostos no organismo humano são muito baixas – na faixa de micromoles, o que está relacionado à sua limitada absorção e biodisponibilidade. Provavelmente, um composto bioativo é capaz de modular uma ou duas reações in vivo que, como consequência, afetarão diferentes processos. A inibição de uma única enzima como a ciclo-oxigenase (COX-2), por exemplo, afeta a inflamação e, consequentemente, o desenvolvimento de diversas DCNT.

  Como já dito anteriormente, estes compostos podem variar em suas estruturas químicas e funções e estão distribuídos em três grandes grupos: polifenóis, glicosinolatos e carotenoides. Os polifenois ou compostos fenólicos presentes na alimentação humana constituem um dos mais numerosos e amplamente distribuídos grupos de compostos naturais do reino vegetal.  Eles são classificados em: flavonoides (flavonois, flavonas, flavanois, antocianidinas, flavanonas, isoflavonas, cumarinas, quercetina, miricetina), ácidos fenólicos (ácido gálico, hidroxicinamatos, estilbenos polifenólicos), lignanas (fitoestrógenos) e estilbenos (resveratrol). A capacidade de interação dos polifenois com proteínas também resulta em inibição de enzimas digestivas, com consequente redução da digestibilidade de proteínas alimentares, e por essa razão, alguns polifenois são descritos na literatura como fatores antinutricionais. Além disso, apresenta variadas funções biológicas: sequestro de espécies de radicais de oxigênio (EROs), modulação da atividade de algumas enzimas específicas, ação antibióticos, antialergênicos, anti-inflamatórios e ação genômica, no sentido de reduzir o risco de DCNT. São exemplos desses compostos: aipo, salsa e algumas ervas, frutas cítricas, camomila, chá verde, alcachofra, manjericão, vinho tinto, linhaça, uvas, morangos, framboesas, romã, amoras, entre outros.

Os glicosinolatos são muito importantes, já que uma alimentação rica em vegetais crucíferos demonstra benefícios para a saúde, incluindo associação com um risco reduzido de doenças cardiovasculares e cânceres. As propriedades biológicas benéficas relacionadas às hortaliças crucíferas podem ser atribuídas ao seu alto conteúdo de glicosinolatos, e o conteúdo desses varia conforme o vegetal, dependendo da espécie, clima e outras condições de cultivo. Glicosinolatos são tioglicosídeos biologicamente inativos que devem ser hidrolisados a isotiocianatos (ITC), nitrilas ou tiocianatos para exercer atividade biológica nos seres humanos. A hidrólise de glicosinolatos, in vivo, pode ocorrer via ação das mirosinases presentes na hortaliça, ou por ação da microbiota, que também apresenta atividade dessa enzima. A mastigação tem papel importante na quebra da parede celular. Em alimentos crus ou processados, ela é o primeiro passo para a formação de produtos de hidrólise de glicosinolatos no organismo. A exceção são os alimentos cozidos, em que a mirosinase é totalmente inativada, impedindo assim, a formação de ITC, tiocianatos e nitrilas durante a mastigação. Esse grupo de compostos bioativos é encontrado principalmente em hortaliças do gênero Brássica, como a couve, repolho, brócolis, couve-flor, rúcula, agrião, couve-de-bruxelas.

  Os carotenoides são bastante numerosos na natureza, sendo que apenas 30 a 40 deles estão presentes na alimentação. Destes, betacaroteno, alfacaroteno, betacriptoxantina, luteína, zeaxantina e licopeno são responsáveis por aproximadamente 90% das concentrações plasmáticas dos carotenoides, além de serem os principais carotenoides presentes na alimentação. O organismo humano não é capaz de sintetizar carotenoides; assim, frutas e hortaliças constituem suas principais fontes. Esses compostos possuem diversas funções, como: ação antioxidante, ações relacionadas ao controle da expressão genética, à regulação da comunicação e da proliferação celular, atuação na resposta imune e à modulação de enzimas metabolizadoras de xenobióticos. É visto que nem todos os carotenoides apresentam função de pró-vitamina A, especialmente os alfa e betacaroteno e a betacriptoxantina apresentam essa função, sendo o betacaroteno desses o composto que apresenta maior eficiência de conversão em vitamina A. Por sua vez, o licopeno (presente em tomate, melancia, toranjas, mamão, pêssego) é o mais eficiente com ação antioxidante, além de anticancerígena; a sua biodisponibilidade é baixa, mas pode ser melhorada por meio de processos térmicos.

  Dessa forma, é visto que os efeitos dos compostos bioativos na saúde dependem de vários fatores, incluindo as quantidades consumidas e a biodisponibilidade desses compostos. Esses compostos atuam na redução da agregação plaquetária e do risco de aterosclerose, além de ter a capacidade de modular eventos epigenéticos, como a metilação do DNA e a acetilação de histonas. Assim, sabe-se dos efeitos terapêuticos desses compostos bioativos, o que aumenta a importância do entendimento das estruturas químicas e das funções biológicas desses compostos in vivo. Contudo, ainda é necessário mais estudos conclusivos sobre esse assunto. Por fim, é importante ressaltar que a alimentação saudável e a prática de atividade física regular e orientada exercem papeis fundamentais no estilo de vida saudável e na redução do risco de doenças crônicas não transmissíveis. 

Texto elaborado por: Agnes Denise de Lima Bezerra 

Nutricionista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN);

Pós-graduanda em Nutrição clínica funcional (Universidade Cruzeiro do Sul/SP);

Mestranda em Nutrição pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizada única e exclusivamente, para seu conhecimento. 

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