quinta-feira, 2 de maio de 2013

Álcool



      O irresistível atrativo das preparações alcoólicas que é sua capacidade de alegrar, excitar, e fazer esquecer as angústias do dia-a-dia é também seu calcanhar de Aquiles. Trata-se do poderoso etanol.

      O etanol é tóxico para o fígado, pâncreas, coração, pulmões e sistema nervoso central e periférico. Irrita e inflama as mucosas, podendo gerar esofagite, gastrite, atrofia gástrica e síndrome de má-absorção. Consumidores assíduos são mais suscetíveis à hipertensão arterial e ao acidente vascular cerebral. Gera radicais livres, desencadeando estresse oxidativo e constitui-se em agente carcinogênico para o fígado, pâncreas e, sobretudo, em associação com o fumo, para toda a porção alta dos aparelhos digestivo e respiratório, tais como boca, palato, faringe, laringe e esôfago. Pode interferir no metabolismo de vitaminas e minerais, bem como no balanço calórico-protéico, e desnutrição crônica ao lado de síndromes potencialmente fatais, como a encefalopatia de Wernicke (déficit de tiamina) estão associadas a essa dependência.

   Após a ingestão do etanol, cerca de 20% do total é absorvido no estômago, e o restante, nas primeiras porções do intestino delgado. Somente 2 a 10% do total absorvido é eliminado via rins e pulmões; o restante é oxidado, principalmente no fígado.

    Quanto maior a concentração de etanol na bebida mais rapidamente ela será absorvida, ou seja, bebidas fermentadas como os vinhos que possuem entre 10 a 20% de etanol são absorvidas mais rapidamente do que as cervejas que possuem etanol na concentração de 5%. Porém, bebidas destiladas com etanol na concentração de 40 a 50%, como por exemplo, uísque, licores e cachaça, não são rapidamente absorvidas e o consumo apenas de uma dose causa irritação na mucosa do trato gastrointestinal com pequenos sangramentos e inflamação.

     A presença de alimentos sólidos ou líquidos no estômago, especialmente aqueles com alto conteúdo lipídico, retardam o esvaziamento gástrico e conseqüentemente sua absorção, já que esta ocorre em maior parte no intestino delgado, diminuindo os níveis sanguíneos e cerebrais desta substância.

   O álcool esvazia o corpo de vitaminas do complexo B e também de ácido ascórbico (vitamina C), afetando dessa forma negativamente o estado nutricional das pessoas. Os indivíduos dependentes de álcool, cuja alimentação é geralmente deficiente, podem sofrer de beribéri e escorbuto, provocados respectivamente pela deficiência de tiamina (vitamina B1) e ácido ascórbico (vitamina C), dentre outras doenças carenciais.

Composição


    Bebidas alcoólicas são produtos complexos que contêm álcool etílico e outros componentes que lhes conferem características sensoriais específicas. Possuem calorias vazias, isto é, não apresentam nenhum valor nutritivo.

            As bebidas alcoólicas podem ser classificadas em:

Bebidas fermentadas: resultam da fermentação alcoólica; ex: vinho, champanhe, sidra, cerveja, saquê;

Bebidas fermento-destiladas: aquelas obtidas por fermentação de frutos ou plantas e posterior destilação do álcool; ex: aguardente, cachaça, conhaque, uísque, rum, gim, bagaceira, pisco, tequila, vodca;

Bebidas alcoólicas de mistura: aquelas que resultam de líquidos alcoólicos adicionados de água, substâncias aromáticas, açúcares; ex: licores, coquetéis e batidas.

Quadro 1. Concentração de álcool nas bebidas.

Bebidas
Concentração de álcool/ gramas de álcool
1 lata de cerveja – 350ml
5% = 17g de álcool
1 dose de aguardente – 50ml
50% = 25g de álcool
1 copo de chope – 200ml
5% = 10g de álcool
1 copo de vinho – 90ml
12% = 10g de álcool
1 garrafa de vinho – 750ml
12% = 80g de álcool
1 dose de destilados (uísque, pinga, vodca etc.) – 50ml
40-50% = 20-25g de álcool
1 garrafa de destilados – 750ml
40-50% = 300-370g de álcool.
Fonte: Vannuchi & Marchini, 2007.

A quantidade de carboidratos varia enormemente: uísque, conhaque e vodca não contêm carboidratos; vinho branco seco e vinho tinto contêm de 2 a 10g/L; cerveja e xerez seco (tipo de vinho fortificado) 30g/L; vinho branco doce e vinho do porto contêm até 120g/L.

        O teor protéico e vitamínico dessas bebidas é extremamente baixo, com exceção da cerveja. O teor de ferro pode ser apreciável, especialmente no vinho. Cada grama de etanol contém 7kcal/g.

Álcool x Cirrose e Pancreatite

       O álcool é o fator etiológico mais comum da cirrose e da pancreatite crônica, e o risco de ambas as doenças está grandemente correlacionado com a quantidade de álcool ingerida. Na cirrose ocorre alteração na circulação do sangue no fígado devido ao aparecimento de fibrose perivenular (lesão nas células do fígado), que resulta na hipertensão portal, podendo causar deterioração da função hepática. Além disso, também podem ocorrer alterações na quantidade de gorduras, reações inflamatórias e colestase.
 
       Dentre os primeiros sintomas da cirrose, podem ser citadas a icterícia e a hepatomegalia (fígado aumentado). Os sintomas secundários incluem hipertensão portal (aumento da pressão na veia porta do fígado) e esplenomegalia (aumento do volume do baço), edema e ascite, encefalopatia, hemorragia gastrointestinal de esôfago ou varizes de esôfago e tendências a sangramentos devido a anormalidades nos fatores de coagulação.

     Cerca de 80% dos pacientes com cirrose alcoólica e 30% dos pacientes com câncer hepático são indivíduos que bebem álcool excessivamente.

         O consumo crônico e excessivo de bebidas alcoólicas é a principal causa de pancreatite crônica. As principais complicações observadas na pancreatite crônica são: compressão gastrointestinal, icterícia, cistos, expansão da cavidade do pâncreas, necrose pancreática, abscessos, hemorragia digestiva de origem pancreática e fístulas.

      Como a inflamação e danos celulares podem causar injúria no DNA, a gravidade da pancreatite crônica provavelmente está associada com aumento na incidência de câncer pancreático. O mecanismo pelo qual o álcool causa pancreatite crônica não é bem conhecido. Em condições normais, o álcool é metabolizado no pâncreas como no fígado via álcool desidrogenase a acetaldeído, e o excesso na ingestão de álcool pode, todavia, ter efeitos patológicos diretos nas células pancreáticas, como ocorre no fígado.

      Embora a ingestão crônica e excessiva de etanol seja mais freqüente na pancreatite crônica, os fatores ambientais e genéticos também podem estar envolvidos na patogênese tanto como a própria quantidade de álcool consumida.

Álcool x Pressão Arterial

      Em indivíduos hipertensos, a ingestão de álcool, aguda e dependentemente da dose, reduz a pressão arterial, porém ocorre elevação algumas horas após o seu consumo. Em vista da controvérsia em relação à segurança e ao benefício cardiovascular de baixas doses, assim como a ação nefasta do álcool na sociedade, devemos orientar àqueles que têm o hábito de ingerir bebidas alcoólicas, que não ultrapassem 30g de etanol ao dia, para homens, de preferência não habitualmente, sendo metade dessa quantidade (15g) a tolerada para mulheres.

Álcool x Obesidade

       Considerando-se que o álcool possui valor energético (7kcal/g), ele tem a habilidade de suprimir as necessidades calóricas diárias de um indivíduo e/ou levá-lo ao sobrepeso, dependendo da quantidade, freqüência e modo de consumo. Mesmo com o aumento do gasto energético basal nos indivíduos alcoolistas, muitas vezes isso não é suficiente para compensar a grande quantidade de calorias ingeridas. Assim, muitos pacientes dependentes de álcool apresentam sobrepeso, obesidade e até circunferência da cintura acima dos padrões esperados.

Álcool x Doenças Cardiovasculares

     Vários estudos populacionais sugerem que o consumo moderado de bebidas alcoólicas protege contra doença coronariana e cardiovascular. Em relação a acidentes vasculares encefálicos, existe um provável efeito protetor sobre eventos isquêmicos, sendo inconsistente seu efeito sobre os acidentes encefálicos hemorrágicos.

     As evidências existentes sugerem que o consumo de 1-2 doses diárias de álcool propicia uma redução de 20-40% de eventos cardiovasculares em relação aos indivíduos abstêmios, observando-se um aumento progressivo das doenças atribuídas ao consumo de álcool com doses maiores.

Álcool x Gestação

    Não é aconselhado o uso de bebidas alcoólicas durante a gestação, pois já foi demonstrada a associação dessa prática e consequências deletérias para o bebê, que afetam os olhos, nariz, coração, sistema nervoso central, acompanhadas de atraso no crescimento e retardamento mental. Esse quadro é reconhecido como síndrome fetal alcoólica. Entretanto, o consumo ocasional de uma taça de vinho, acompanhada de alimentos, não exerce efeitos prejudiciais ao feto. O consumo moderado e freqüente pode repercutir no desenvolvimento normal do feto, o que é observado pela hipotonicidade do recém-nascido.

Resumindo:

O consumo de bebidas alcoólicas não deve ultrapassar 30ml de etanol/dia (exemplo: 60ml de bebida destilada como uísque; vodca; aguardente), 240ml de vinho ou 720ml de cerveja para o sexo masculino. Para o sexo feminino, o consumo não deve ultrapassar a metade deste.

    Consumir vinho tinto, em doses moderadas (uma ou duas doses/dia, sendo uma dose correspondente a 15ml de etanol para as mulheres e 30ml para homens), tem sido relacionado com a menor mortalidade por doença aterosclerótica.

            A recomendação é diferente para homens e mulheres em razão da estrutura física. As mulheres normalmente são menores e mais leves que os homens, o que torna o organismo feminino mais vulnerável ao álcool.

   
Se beber, não dirija!



As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.


Referências Bibliográficas:

Aguiar, AS; Silva, VA. As calorias do etanol são aproveitadas pelo organismo? Rev. Nutrição em Pauta, 2007: p. 45-49. 
Cordeiro, LFA; Conti, VLM; Silva, MB. Hipertensão arterial sistêmica. 1 ed. Nutrição e Doenças Cardiovasculares. São Paulo: Atheneu, 2005: p. 55-62. 
Faintuch, J; Ramos, O. Álcool: alimento ou toxina? Rev Bras Nutr Clin 2012; v.27, n.2: p. 71-72. 
Foppa, M; Fuchs, FD; Duncan, BB. Álcool e Doença Aterosclerótica. Arq Bras Cardiol, 2001, v.76, n.2; p. 165-170. 
Guia Alimentar para a População Brasileira, 2006. Disponível em: http://nutricao.saude.gov.br/guia_conheca.php Acessado em: 14/04/2013
Isosaki, M; Cardoso, E. Manual de Dietoterapia e Avaliação Nutricional do serviço de nutrição e dietética do Instituto do Coração – HCFMUSP. 1 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2004: p.17.
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Philippi, ST. Nutrição e Técnica Dietética. 1 ed. São Paulo: Manole, 2003. p. 217-218.
Vannuchi, H. Alcoolismo e Nutrição. Nutrição Clínica. 1 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007; p. 137-156.
Vitolo, MR. Nutrição: Da Gestação à Adolescência. 1 ed. Reichmann & Affonso Editores: Rio de Janeiro, 2003, p. 16.
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