quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dieta e Síndrome Metabólica


A Síndrome Metabólica (SM) é um transtorno complexo representado por um conjunto de fatores de risco cardiovascular usualmente relacionados à deposição central de gordura e a resistência à insulina.

A prevalência de SM vem aumentando em todo o mundo nas últimas décadas. No Brasil, achados de pesquisas têm observado padrões similares, com dados variando de 48% a 87% desses indivíduos com SM. Um dos motivos para o aumento significativo da SM na população é a associação desta com obesidade e diabete melito tipo 2 (DM2).

     A abordagem nutricional na síndrome metabólica é parte importante do tratamento não-farmacológico, contribuindo para o controle da obesidade, hiperglicemia ou diabetes propriamente dito, hipertensão arterial e dislipidemia.

     Um plano alimentar saudável é fundamental no tratamento da SM. Ele deve ser individualizado e prever uma redução de peso sustentável de 5% a 10% de peso corporal inicial. Deve fornecer um valor calórico total (VCT) compatível com a obtenção e/ou manutenção de peso corporal desejável. Para obesos, a dieta deve ser hipocalórica, com uma redução de 500kcal a 1000kcal do gasto energético total (GET) diário previsto ou da anamnese alimentar, com o objetivo de promover perdas ponderais de 0,5kg a 1,0kg/semana. Um método prático para o cálculo do GET é utilizar 20kcal a 25kcal/kg peso atual/dia. Não utilizar dietas inferiores a 800kcal, pois não são efetivas para a redução de peso.

Carboidratos (50% a 60% das calorias totais)

       É recomendado o consumo de hortaliças, leguminosas, grãos integrais e frutas. O açúcar de mesa ou produtos contendo açúcar podem eventualmente ser ingeridos no contexto de um plano alimentar saudável. O total de porções diárias desse grupo de alimentos varia de acordo com o VCT do plano alimentar prescrito. Considerando que uma porção de carboidratos corresponde a uma fatia de pão de fôrma, ou meio pão francês, ou uma escumadeira rasa de arroz ou de macarrão, ou uma batata média, ou meia concha de feijão, por exemplo, mulheres com IMC > 27kg/m² e sedentárias poderão receber apenas seis porções/dia, enquanto homens ativos com peso normal poderão ingerir até 11 porções/dia.

Proteínas (0,8g a 1,0g/kg atual/dia ou 15%)

        Recomenda-se uma ingestão diária de 0,8g a 1g/kg de peso atual ou 15% do VCT. Corresponde a duas porções pequenas de carne magra/dia, que podem ser substituídas pelas leguminosas (soja, grão de bico, feijões, lentilha, etc) e duas a três porções diárias de leite desnatado ou queijo magro. O consumo de peixes deve ser incentivado por sua riqueza em ácidos graxos ômega-3. Os ovos também podem ser utilizados como substitutos da carne, respeitando-se o limite de duas gemas/semana, em função do teor de colesterol. Excessos proteicos devem ser evitados.

Gorduras (25% a 35% das calorias totais)

          A ingestão de gordura é inversamente associada à sensibilidade insulínica não somente pela relação positiva com o peso corporal, mas também pela qualidade da oferta de ácidos graxos. Em algumas situações, como na hipertrigliceridemia ou quando o HDL-colesterol for inferior ao desejável, pode ser aconselhável aumentar a quantidade de gordura monoinsaturada, reduzindo neste caso a oferta de carboidratos. Esta substituição deve acontecer, pois o aumento dos ácidos graxos monoinsaturados de forma aditiva ao plano alimentar pode promover o aumento de peso. O uso de gordura em cotas inferiores a 15% do VCT pode diminuir o HDL-colesterol e aumentar os níveis plasmáticos de glicose, insulina e triglicerídeos.

       Os ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 podem ser benéficos na síndrome metabólica em especial no tratamento da hipertrigliceridemia grave em pessoas com diabetes tipo 2. Duas ou três porções de peixe/semana são recomendadas.

          Os ácidos graxos trans aumentam o LDL-colesterol e triglicerídeos e reduzem a fração HDL-colesterol. A maior contribuição desses ácidos graxos na dieta origina-se do consumo de óleos e gorduras hidrogenadas, margarinas duras e shortenings (gorduras industriais presentes em sorvetes, chocolates, produtos de padaria, salgadinho tipo chips, molho para saladas, maionese, cremes para sobremesa e óleos para fritura industrial) e, em menor quantidade, produtos lácteos e carnes bovinas e caprinas. Seu consumo deve ser reduzido.

Ácidos Graxos Saturados (AGS): < 10% das calorias totais. Incluem os ácidos graxos saturados e os ácidos graxos trans. Recomendar até 7% se LDL-colesterol for > 100mg/dL.

Ácidos Graxos Poli-insaturados (AGPI): até 10% das calorias totais. Incluem os ácidos graxos ômega-3 os quais são encontrados em peixes como salmão, sardinha, cavala e arenque.

Ácidos Graxos Monoinsaturados (AGMI): até 20% das calorias totais. O azeite de oliva possui 77% de AGMI e seu consumo é predominante na dieta Mediterrânea.

Colesterol: < 300mg/dia. Alguns indivíduos com LDL-colesterol > 100mg/dL podem se beneficiar com uma ingestão diária de colesterol de 200mg/dia.

Fibras (20g a 30g/dia)

      É recomendado o consumo de fibras em 20g a 30g/dia sob a forma de hortaliças, leguminosas, grãos integrais e frutas, pois fornecem minerais, vitaminas e outros nutrientes essenciais para uma dieta saudável. Embora altas quantidades de fibras (50g/dia) mostrem efeitos benéficos sobre o controle glicêmico e lipídico, não é conhecido se a palatabilidade e os efeitos gastrintestinais colaterais dessa quantidade de fibras seriam aceitáveis pela população.

Vitaminas e Minerais

       O plano alimentar deve prover a recomendação para o consumo diário de duas a quatro porções de frutas, sendo pelo menos uma rica em vitamina C (frutas cítricas) e de três a cinco porções de hortaliças cruas e cozidas. Sempre que possível, prefira os alimentos integrais.

Sal de cozinha

       Deve ser limitado a 5g/dia. Devem ser evitados os alimentos processados como embutidos, conservas, enlatados, defumados e salgados de pacotes tipo snacks. Ao contrário, temperos naturais como salsa, cebolinha e ervas aromáticas são recomendados em vez de condimentos industrializados.

Álcool

         O consumo de álcool deverá ser evitado. O seu efeito depende da qualidade e da quantidade ingerida, se o seu consumo está ou não associado a algum tipo de alimento. O consumo diário não deverá ultrapassar duas doses para o homem e uma para a mulher, sendo que uma dose equivale a uma taça de vinho (100mL) ou 40mL de bebida destilada (uísque, pinga, vodca) ou uma lata de cerveja (350mL).

Dieta DASH e Dieta Mediterrânea

          Preconizam o uso de hortaliças, leguminosas, grãos integrais e frutas, laticínios com baixo teor de gordura total, gordura saturada e trans e colesterol, alta quantidade de gordura monoinsaturada (azeite de oliva) e ácidos graxos ômega-3 e fornece altas quantidades de potássio, magnésio e cálcio. Elas podem ser uma opção terapêutica na síndrome metabólica quando associada a uma intervenção no estilo de vida.

Recomendações Complementares

            O plano alimentar deve ser fracionado em cinco refeições, sendo três principais e dois lanches. Quanto à forma de preparo dos alimentos, preferir os grelhados, assados, cozidos no vapor ou até mesmo crus. Os alimentos diet e light podem ser indicados no contexto do plano alimentar e não utilizado de forma exclusiva. Devem-se respeitar as preferências individuais e o poder aquisitivo do paciente e da família.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.


Referências Bibliográficas:

I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica. Arq Bras Cardiol, 2005, v.84, Suplemento I: p. 1-28.

Busnello, FM; Bodanese, LC; Pellanda, LC; Santos, ZEA. Intervenção Nutricional e Impacto na Adesão ao Tratamento em Pacientes com Síndrome Metabólica. Arq Bras Cardiol 2011; v.97, n.3: p. 217-224.


Lopes, HF. Síndrome Metabólica: Uma Abordagem Multidisciplinar. 1ed. São Paulo: Atheneu, 2007, p.151-163.
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