quarta-feira, 18 de março de 2015

Artrite Reumatoide e Impacto Nutricional



A artrite reumatoide (AR) é uma doença inflamatória autoimune progressiva com efeitos articulares e sistêmicos, com prevalência estimada em 0,5%–1% da população, predominante em mulheres e na faixa etária de 30 a 50 anos1.

A AR acomete simetricamente pequenas e grandes articulações, principalmente mãos e pés. Além da deformidade irreversível e da limitação funcional, os pacientes com AR e doença avançada podem apresentar menor sobrevida2

Nos últimos 10 anos, houve grande avanço na elucidação dos mecanismos fisiopatológicos da AR, com implementação de diferentes estratégias de tratamento. O período inicial da doença, em especial seus 12 primeiros meses é considerado uma janela de oportunidade terapêutica com a possibilidade de remissão sustentada da AR3

A interação entre fatores genéticos predisponentes e gatilhos ambientais é necessária para a manifestação da doença. Segundo as evidências científicas, tabagismo, consumo de café, obesidade, gravidez, maior peso ao nascer e menor nível socioeconômico estão diretamente associados ao risco; enquanto que os antioxidantes alimentares e amamentação são protetores4,5.

Tem sido proposto um possível papel da microbiota na manifestação da AR. A disbiose cria um desequilíbrio nas respostas imunes dos sistemas inato e adaptativo resultando no início de uma cascata inflamatória, com posterior rompimento do tecido local e doença clínica6

Vários agentes infecciosos, tais como bactérias e vírus têm sido associados com a patogênese da AR. Se a resposta inflamatória não for adequada e/ou a infecção não for controlada, a persistência pode eventualmente resultar em inflamação crônica e autoimunidade. Em modelos animais geneticamente predispostos, as bactérias do intestino induziram a autoimunidade7.

       As hipersensibilidades alimentares podem promover reações autoimunes nas articulações. Frequentemente há uma associação entre a ingestão de alimentos e a gravidade da AR. Portanto, a eliminação de possíveis antígenos alimentares pode trazer benefícios clínicos à doença8,9.

Um estudo piloto demonstrou uma melhora clínica da AR com dieta elementar por 2 semanas, sendo esta tão eficaz quanto o tratamento com prednisolona oral (15mg/dia). Tal pesquisa apoiou a ideia de que a AR pode ser uma reação a um antígeno alimentar, e que o processo da doença começa no intestino10

           Outra pesquisa investigou a ligação entre o intestino, a imunidade e a AR. Os anticorpos (IgG, IgA, e IgM) alimentares para a α-lactoalbumina, β-lactoglobulina, caseína, gliadina, aveia, soja, ovalbumina, peixe, bacalhau e carne de porco foram medidos no soro e fluido de perfusão jejunal de pacientes com AR e controles saudáveis. A produção de anticorpos reativos cruzados foi notavelmente maior no intestino de muitos pacientes com AR8.

          Um estudo randomizado mostrou que a dieta vegetariana livre de glúten melhorou os sinais e sintomas da AR e reduziu os níveis de imunoglobulina G (IgG) do anti-gliadina e anti-β-lactoglobulina9.

 Em pacientes com AR, o sistema de defesa antioxidante é comprometido, como evidenciado pelo aumento dos marcadores de stress oxidativo, e diminuição dos níveis de enzimas antioxidantes protetoras. Uma alimentação enriquecida com antioxidantes, como a vitamina E11, vitamina C12, β-caroteno11, licopeno12 e substâncias fenólicas11,12, tem sido sugerida para melhorar os sintomas. Os benefícios clínicos também têm sido atribuídos ao consumo de frutas e vegetais12.

           Os ácidos graxos ômega-3 demonstraram melhora dos sintomas clínicos da AR em vários estudos, com inibição da transmissão da dor por suprimir a produção de citocinas e eicosanoides mais inflamatórios, e por modular a sensibilização central induzida por dor inflamatória e neuropática. Os efeitos benéficos do ômega 3 em várias doenças inflamatórias foram explicados pela ação antagonista deste para a cascata do ácido araquidônico 13-14.

             Portanto, a intervenção dietética pode melhorar os sintomas dos pacientes com AR. Os mecanismos propostos incluem tratamento do intestino, remoção de alérgenos, inclusão de alimentos/suplementos antioxidantes e antinflamatórios, e uma redução de gorduras inflamatórias. A maioria dos estudos foi realizada em modelos experimentais animais. Mais pesquisas randomizadas em humanos com um período maior de intervenção são necessárias para confirmar os benefícios.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.
Texto elaborado por: Fernanda Serpa de Carvalho 
Docente e representante VP Consultoria Nutricional RJ
Diretora Nutconsult
Nutrição Clínica Funcional
Fitoterapia Funcional
Mestre em Clínica Médica
Consultório: (21) 26101416

Referências Bibliográficas: 

1 MARQUES-NETO, J.F.; GONÇALVES, E.T.; LANGEN, L.F.O.B. et al. Multicentric study of the prevalence of adult rheumatoid arthritis in Brazilian population samples. Rev Bras Reumatol; 33:169–73, 1993. Apud: MOTA, L.M.H.; CRUZ, B.A.; BRENOL, C.V. et al. Consenso 2012 da Sociedade Brasileira de Reumatologia para o tratamento da artrite reumatoide. Rev Bras Reumatol; 52(2):135-74, 2012.
2 CHOY, E. Understanding the dynamics: pathways involved in the pathogenesis of rheumatoid arthritis. Rheumatology (Oxford);51(Suppl 5):v3-11, 2012.
3 MCINNES, I.B.; O’DELL, J.R. State-of-the-art: rheumatoid arthritis. Ann Rheum Dis; 69(11):1898–906, 2010. Apud: MOTA, L.M.H.; CRUZ, B.A.; BRENOL, C.V. et al. Consenso 2012 da Sociedade Brasileira de Reumatologia para o tratamento da artrite reumatoide. Rev Bras Reumatol; 52(2):135-74, 2012.
4 LIAO, K. P.; ALFREDSSON, L.; KARLSON, E. W. Environmental influences on risk for rheumatoid arthritis. Curr Opin Rheumatol; 21(3):279-83, 2009.
5 LAHIRI, M.; MORGAN, C.; SYMMONS, D. P. M. et al. Modifiable risk factors for RA: prevention, better than cure? Rheumatology (Oxford); 51(3):499-512, 2012.
6 SCHER, J.U.; ABRAMSON, S.B. The microbiome and rheumatoid arthritis. Nat Rev Rheumatol; 7(10):569-78, 2011.
7 SANTEGOETS, K.C.; VAN BON, L.; VAN DEN BERG, W.B. et al. Toll-like receptors in rheumatic diseases: Are we paying a high price for our defense against bugs? FEBS Lett.; 2011 Apud: MARIJNISSEN, R. J.; KOENDERS, M. I.; VAN DE VEERDONK, F.L. et al. Exposure to Candida albicans polarizes a T-cell driven arthritis model towards Th17 responses, resulting in a more destructive arthritis. PloS One; 7(6): e38889, 2012.
8 HVATUM, M.; KANERUD, L.; HÄLLGREN, R. et al. The gut-joint axis: cross reactive food antibodies in rheumatoid arthritis. Gut; 55(9):1240-7, 2006.
9 HAFSTRÖM, I.; RINGERTZ, B.; SPÅNGBERG, A. et al. A vegan diet free of gluten improves the signs and symptoms of rheumatoid arthritis: the effects on arthritis correlate with a reduction in antibodies to food antigens. Rheumatology (Oxford); 40(10):1175-9, 2001.
10 PODAS, T.; NIGHTINGALE, J.M.D.; OLDHAM, R. et al. Is rheumatoid arthritis a disease that starts in the intestine? A pilot study comparing an elemental diet with oral prednisolone. Postgrad Med J; 83(976):128-31, 2007.
11 D’ORAZIO, N.; GAMMONE, M.A.; GEMELLO, E. et al. Marine bioactives: pharmacological properties and potential applications against inflammatory diseases. Mar Drugs; 10(4):812-33, 2012
12 LOTITO, S.B.; FREI, B. Consumption of flavonoid-rich foods and increased plasma antioxidant capacity in humans: cause, consequence, or epiphenomenon? Free Radic Biol Med; 41:1727-46, 2006. Apud: LAHIRI, M.; MORGAN, C.; SYMMONS, D.P.M. et al. Modifiable risk factors for RA: prevention, better than cure? Rheumatology (Oxford); 51(3):499-512, 2012.
13 GEUSENS, P.; WOUTERS, C.; NIJS, J. et al. Long-term effect of omega-3 fatty acid supplementation in active rheumatoid arthritis. A 12-month, double-blind, controlled study. Arthritis Rheum; 37:824-9, 1994. Apud: LAHIRI, M.; MORGAN, C.; SYMMONS, D. P. M. et al. Modifiable risk factors for RA: prevention, better than cure? Rheumatology (Oxford); 51(3):499-512, 2012.
14 NIELSEN, G.L.; FAARVANG, K.L.; THOMSEN, B.S. et al. The effects of dietary supplementation with n-3 polyunsaturated fatty acids in patients with rheumatoid arthritis: a randomized, double blind trial. Eur J Clin Invest; 22:687-91, 1992. Apud: LAHIRI, M.; MORGAN, C.; SYMMONS, D. P. M. et al. Modifiable risk factors for RA: prevention, better than cure? Rheumatology (Oxford); 51(3):499-512, 2012.
 

 



















 









 







 
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