domingo, 22 de março de 2015

Glutamina


     A glutamina é o aminoácido circulante mais abundante no sangue, e, embora seja classificado como aminoácido não essencial em estado de boa saúde, tem sido considerado um nutriente essencial em estados catabólicos, sendo, portanto, um aminoácido condicionalmente essencial.


    As principais fontes alimentares de glutamina são as carnes brancas e vermelhas, proteína isolada de soja, leite e iogurte, ovos e queijo.

    A glutamina é sintetizada em praticamente todos os tecidos, principalmente na musculatura esquelética. Seu metabolismo é regulado pelas enzimas glutaminase (que catalisa a hidrólise de glutamina em glutamato) e glutamina sintetase (que converte o glutamato e amônia em glutamina e água). Quando liberada pela musculatura esquelética, a glutamina apresenta as seguintes funções:

● transporta nitrogênio entre os órgãos, fazendo parte de várias proteínas corpóreas;

● constitui importante fonte de energia para células de rápida proliferação, como: fibroblastos (importantes para a reparação tecidual); linfócitos (importantes para manter a resposta imunológica) e as células do epitélio intestinal (importantes para a manutenção da estrutura, do metabolismo e das funções intestinais, principalmente em estados críticos, em que a barreira mucosa do intestino pode estar comprometida);

● fornece nitrogênio para a síntese de purinas, pirimidinas e nucleotídeos;

● precursora de neuromediadores como o GABA (ácido gama aminobutírico) e o glutamato.

    Indivíduos considerados saudáveis, pesando aproximadamente 70kg, apresentam cerca de 70-80g de glutamina, distribuída por diversos tecidos corporais. No sangue, a concentração de glutamina é em torno de 500-700µmol/L. Tanto a concentração tecidual, quanto a concentração sanguínea de glutamina podem ser influenciadas de acordo com a atividade da glutamina sintetase ou da glutaminase. Alguns tipos de células, tais como células do sistema imune, rins e intestinos, apresentam elevada atividade da glutaminase, sendo assim considerados tecidos predominantemente consumidores de glutamina. Por outro lado, os músculos esqueléticos, os pulmões, o fígado, o cérebro e, possivelmente, o tecido adiposo apresentam elevada atividade  da enzima glutamina sintetase, sendo assim considerados tecidos predominantemente sintetizadores de glutamina.

Indicações

  Os estudos têm demonstrado que diversas situações caracterizadas por estresse metabólico determinam alterações no fluxo interorgânico de glutamina, com diminuição de suas concentrações no plasma e musculatura esquelética. Essas alterações são o resultado do aumento da demanda de glutamina (em relação à sua disponibilidade) no fígado, rins, intestino e sistema imune. São exemplos dessas situações: síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS); após jejum prolongado; caquexia por câncer; queimaduras; alterações imunológicas; desnutrição; trauma; cirurgias (principalmente intestinais); alteração da flora bacteriana intestinal; hipermetabolismo ou catabolismo.

    Em estados infecciosos, a manutenção ou melhora da resposta imune é fundamental para a sobrevida do paciente. Linfócitos do tipo T, por exemplo, necessitam aumentar a sua proliferação para responder a estímulos antigênicos, produzindo citocinas importantes para a propagação da resposta imune. A proliferação de linfócitos é regulada pela disponibilidade de glutamina. Adicionalmente, a diferenciação de linfócitos do tipo B necessita de diferenciação para produzir anticorpos, contudo, esta função é dependente exclusivamente da concentração de glutamina, não podendo ser mimetizada por qualquer outro aminoácido.







   Em estados inflamatórios, incluindo traumas e a sepse, o consumo de glutamina tanto por linfócitos quanto por outras células do sistema imune, tais como neutrófilos e macrófagos aumentam intensamente. 

   O aumento da demanda de glutamina por células do sistema imune, em conjunto com a elevação da utilização do mesmo aminoácido por outros tecidos leva a um déficit de glutamina no organismo. Como resultado da menor disponibilidade de glutamina, células do sistema imune tem sua capacidade de proliferação, diferenciação e funções limitadas. Estima-se que quando a concentração de glutamina plasmática baixa próxima de 0,4mmol (normal é 0,6mmol) o sistema imunológico tem suas funções comprometidas.

Recomendações

  Sugere-se que provavelmente haja uma depleção de glutamina durante os estados hipercatabólicos com um impacto negativo sobre a celularidade da mucosa intestinal. Isso justificaria a ideia de que a suplementação de glutamina traria benefício clínico por fortalecer a barreira mecânica contra a penetração de microrganismos e toxinas causadores de sepse endógena, barreira essa representada por uma mucosa intestinal trófica. A recomendação diária de glutamina é de 0,3 a 0,5g/kg/peso/dia.

  Alguns autores avaliaram 60 pacientes politraumatizados em estudo prospectivo, randomizado e controlado, isocalórico e isonitrogenado, utilizando misturas nutrititvas oligomonoméricas, com 3,5 e 30,5g% de glutamina nos grupos-controle e estudo, respectivamente, por um período de 5 dias ininterruptos, e mostraram o seguinte: uma frequência baixa de pneumonia, sepse e bacteremia nos pacientes que receberam nutrição enteral suplementada com glutamina.  

    A glutamina é igualmente utilizada tanto pelo polo arterial como pelo polo luminal do enterócito, devendo ser administrada nas quantidades preconizadas anteriormente para nutrição enteral, na forma de pó cristalino, e para a nutrição parenteral total, na forma de dipeptídeo alanilglutamina, em solução a 20% e frasco com volume de 50ml, contendo 13,46g de glutamina pura. Deve ser administrada nas quantidades entre 1,5 a 2,0ml/kg de peso atual/dia, no máximo, e essa quantidade não deve ser somada e contada como proteína total administrada para atingir a necessidade de proteínas por dia nos estados hipermetabólicos, uma vez que é somente um aminoácido e não uma proteína completa.  


As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

Caruso, L; Simony, RF; Silva, ALND. Dietas hospitalares: uma abordagem na prática clínica. 1. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2004.

Cruzat, VF. Efeito da suplementação com L-glutamina livre e na forma de dipeptídeo sobre eixo glutamina-glutationa, sistema imune, sistema inflamatório e vias de sinalização proteica em camundongos submetidos à endotoxinas. [Tese de Doutorado]. Universidade de São Paulo – USP, 2013.

Magnoni, D; Cukier, C. Perguntas e Respostas em Nutrição Clínica. 2 ed. São Paulo: Roca, 2004.


 













 


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