quinta-feira, 7 de maio de 2015

Intolerância à Lactose



       A lactose é um açúcar presente no leite, assim como a frutose é o açúcar da fruta, e a sacarose o açúcar da cana. Para ser absorvida pelo intestino, a lactose necessita ser quebrada em porções menores por meio da ação de uma enzima chamada lactase. A lactase, enzima fabricada pelo intestino delgado, fica na superfície da mucosa intestinal e tem como função a quebra do dissacarídeo lactose nos seus monossacarídeos glicose e galactose, facilitando assim a absorção.

Quando há deficiência da lactase, mesmo que parcial, as quantidades de lactose ingeridas não são hidrolisadas (quebradas) e permanecem intactas no intestino delgado, atraindo água para a região e provocando dores e edemas. A lactose não absorvida passa, então, para o intestino grosso, sendo utilizada pelas bactérias (fermentação). Esse processo produz gás e atrai ainda mais água. O resultado são dores, edemas, flatulência e diarreia, além de a digestão e a absorção de outros nutrientes ficarem comprometidas.

Essa condição é muito prevalente na população adulta mundial, especialmente entre os afrodescendentes, asiáticos e sul-americanos. Na maioria da população mundial, após o desmame, há um declínio gradual na atividade da lactase. Cerca de 75% das pessoas no mundo, à medida que envelhecem, perdem a maior parte da sua capacidade de produzir lactase.

Pequenas quantidades de lactose do leite podem ser muito toleradas pela maioria dos adultos (cerca de 12g em 250ml de leite), além de produtos com teores reduzidos de lactose, como queijo e iogurte, mesmo por aqueles que não digerem bem a lactose. O consumo de leite em quantidades moderadas e fracionadas ao longo do dia tem sido encorajado em todo o mundo, uma vez que é uma importante fonte de proteína, cálcio e riboflavina.

Em crianças, a intolerância à lactose é tipicamente secundária a uma infecção do intestino delgado que pode causar destruição das células da mucosa intestinal. Como a lactase é produzida na ponta das microvilosidades intestinais, frequentemente é a primeira enzima perdida nas doenças intestinais, e o leite deve ser reintroduzido o mais rápido possível.

Deficiência de Lactase

            Há três tipos de deficiência de lactase:

Deficiência genética ou primária: é uma disfunção rara resultante de herança autossômica recessiva. Há poucos casos documentados no mundo, quase todos na Finlândia e nenhum no Brasil. Os bebês que apresentam essa condição nascem saudáveis e apresentam os sintomas nos primeiros dias de vida (distensão abdominal, vômitos, diarreia líquida volumosa e de odor ácido) quando amamentados ou alimentados com fórmulas lácteas. Outros sintomas que podem ocorrer são: dermatite perianal e parada do crescimento se o leite for mantido. O diagnóstico deve ser precoce em razão do elevado risco de desidratação e risco de morte.

Deficiência secundária: é decorrente de condições patológicas que afetam a integridade da mucosa gastrintestinal, sejam elas permanentes (doença celíaca, galactosemia, doença de Crohn, retocolite ulcerativa, fibrose cística, grandes ressecções intestinais ou transitórias (parasitoses, gastroenterites, infecção por rotavírus, subnutrição proteico calórica)).  Em todas essas condições as alterações histológicas da mucosa intestinal se tornam evidentes. Nas condições transitórias observa-se intolerância temporária à lactose que se normaliza com a cura da infecção.

Hiperlactasia do adulto: caracteriza-se por diminuição da quantidade de lactase produzida após o desmame. Essa condição é geneticamente determinada e permanente e tem caráter autossômico recessivo, enquanto que a persistência da atividade da enzima ao longo do dia é um traço autossômico dominante. As manifestações dessa deficiência costumam ser evidentes por volta dos 2 aos 15 anos de idade, dependendo de condições raciais e culturais. Alguns dos sintomas são distensão abdominal do tipo recorrente, flatulência e cólica abdominal do tipo recorrente, em cólicas espasmódicas, periumbilical ou difusa no abdome, de intensidade variável.

Diagnóstico

Atualmente, o teste do hidrogênio expirado é uma das técnicas mais empregadas no diagnóstico da má absorção de lactose. A fermentação da lactose não absorvida pela flora colônica resulta na produção de hidrogênio. Parte desse gás será eliminado pelos pulmões, podendo ser detectado no ar expirado. O aumento na concentração de hidrogênio, em amostras de ar expirado, após a administração de lactose, é indicativo de má absorção e fermentação desse carboidrato, uma vez que não existem outras fontes endógenas para a produção de hidrogênio nos mamíferos.

Recomendação de ingestão

De modo geral, a recomendação de ingestão de leite e produtos lácteos é de três porções por dia.

Para indivíduos com alactasia

Indica-se a exclusão de alimentos que contenham lactose. Contudo esses indivíduos podem fazer uso da enzima lactase, existente no mercado e, dessa forma, se beneficiar da qualidade nutricional do leite e dos produtos lácteos. Esta enzima pode ser adicionada ao leite ou ingerida na forma de medicamento. Uma vez adicionada ao leite, na quantidade indicada pelo fabricante, o leite mantido sob-refrigeração por 24h estará pronto para o consumo. Após a hidrólise da lactose, o produto fica mais doce em razão do poder dulçor dos monossacarídeos glicose e galactose ser maior do que o da lactose. A enzima também pode ser utilizada como medicamento adequando-se a dosagem administrada à quantidade de leite ou produto lácteo ingerido.

Há também no mercado a enzima lactase em forma de comprimido para ser ingerida antes da refeição que contenha leite  e/ou produtos lácteos.

Para essas pessoas recomenda-se ainda a leitura atenta dos rótulos dos alimentos e medicamentos antes do consumo, pois ainda que a lactose seja encontrada na natureza apenas no leite e alguns derivados, há produtos alimentícios adicionados de leite ou propriamente de lactose. Este dissacarídeo pode ser empregado em doces, produtos de confeitaria, pães e molhos em razão de suas propriedades tecnológicas: modifica textura, cor e capacidade de retenção de água de alimentos. A lactose também é usada em inúmeros medicamentos como veículo ou excipiente.

 Para indivíduos com hipolactasia

Indica-se a redução e não a exclusão de alimentos que contenham lactose, uma vez que grande parte desses indivíduos chega a tolerar 12 g de lactose/dia sem apresentar sintomas. Entretanto, a quantidade de lactose a ser consumida é muito variável de indivíduo para indivíduo e dependerá da quantidade e do fracionamento da lactose ingerida e do grau de deficiência da lactase.

Probióticos na Intolerância à Lactose

            Algumas cepas probióticas tem efeito favorável ao melhorar os sintomas de pacientes com intolerância a lactose secundária, como por exemplo, melhoram de dor abdominal, diarreia e absorção da lactose. Em alguns estudos, com efeitos positivos na suplementação dos probióticos em pacientes intolerantes a lactose, utilizou-se a cepa L. Bulgaricus. Atribui-se a diminuição dos sintomas clínicos, graças a melhor digestibilidade da lactose através de atividade enzimática semelhante à betagalactosidase, produzida por lactobacilos.

Em outro estudo, que observou melhora significante dos sintomas de intolerância a lactose, utilizou-se um suplemento com base láctea enriquecido com L casei Shirota e Bifidobacteria breve. O efeito benéfico, de probióticos na intolerância a lactose, parece ser cepa dependente, pois existem alguns estudos com outras cepas bacterianas em que não se observou diferença significante nos pacientes suplementados com probióticos em relação ao grupo placebo, quanto aos sintomas clínicos de intolerância como diarreia, dor abdominal e também no teste respiratório de hidrogênio.

Ainda não existe um consenso quanto ao tempo de uso de probiótico para essa indicação. Mas, chama a atenção, um estudo que observou melhora da sintomatologia intestinal em pacientes suplementados, com probiótico Lactobacillus Casei Shirota (107 UFC) e Bifidobacterium Breve (10 9 UFC) por 4 semanas, particularmente por que os efeitos benéficos persistiram após três meses da suspensão do probiótico.

De outro lado, sabemos que os efeitos benéficos dos probióticos estão associados a sua presença no trato digestivo, e, portanto poderíamos esperar que o seu consumo devesse ser contínuo.

São necessários mais estudos científicos avaliando o tempo de uso e dos benefícios dos probióticos em pacientes com intolerância à lactose.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizada única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

Egashira, EM; Miziara, APB; Leoni, LAB. Grupo do Arroz, Pão, Massa, Batata e Mandioca. In: Philippi, ST. Pirâmide dos alimentos: fundamentos básicos da nutrição. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2008.

Marques, P; Carsava, RDF. Intolerância à Lactose. Disponível em: www.nutrociencia.com.br

Moraes, AEA; Juzwiak, CR. Intolerância à Lactose. Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.

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Pretto, FM; Silveira, TR; Menegaz, V; Oliveira, J. Má absorção de lactose em crianças e adolescentes: diagnóstico através do teste do hidrogênio expirado com o leite da vaca como subtrato. J. Pediatr (Rio de Janeiro): 2002; v.78 ,n.3 p:213-218. 

Probióticos na Intolerância à Lactose. Disponível em: www.nutritotal.com.br
 
Sizer & Whitney, FE. Nutrição Conceitos e Controvérsias. 8ª edição. São Paulo: Manole, 2003.

Téo, CRPA. Intolerância à lactose: uma breve revisão para o cuidado nutricional. Arq Ciências Saúde UNIPAR. 2002: 6(3):135-140.
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