domingo, 5 de julho de 2015

Dislipidemia



Atualmente têm sido observados, na população, hábitos alimentares inadequados. Em virtude de transformações sociais, econômicas, demográficas, tecnológicas e culturais, a forma de se alimentar das pessoas e a composição da dieta vêm sofrendo alterações; estes achados são observados tanto em países desenvolvidos, quanto em desenvolvimento. 1

       Segundo dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), a população brasileira vem reduzindo o consumo de gêneros tradicionais, como arroz e feijão, aumentando o consumo de alimentos de alto valor energético e proteico, industrializados, alimentos ricos em gorduras, sódio e em açúcar refinado; e diminuindo o consumo de carboidratos complexos, importantes fontes de fibras alimentares e gorduras insaturadas. Associada a essas mudanças, vem ocorrendo, também, diminuição dos níveis de atividade física. 2

            Fatores como esses, trazem prejuízos para a saúde da população e contribuem para o desenvolvimento de diversas doenças, como a dislipidemia, caracterizada por modificações no metabolismo dos lipídeos que podem favorecer o desenvolvimento da aterosclerose e das doenças crônicas como a Doença Cardiovascular (DCV), principal causa de morte no Brasil e no mundo.  3,4,5
          A cada ano, no mundo, morrem cerca de 17 milhões de pessoas acometidas pela doença, sendo que, cerca de 80% das mortes, poderiam ser evitadas por mudanças no estilo de vida e hábitos alimentares.5,6

Dislipidemia

          A dislipidemia caracteriza-se por alterações na concentração de triglicérides, colesterol, lipoproteínas de alta (HDL - high density lipoprotein) e baixa densidade (LDL - low density lipoprotein) que estão presentes no sangue. 7

O colesterol é um composto vital para o organismo, ele pode estar na forma livre ou ligado a diferentes ácidos graxos, atua como precursor para síntese de hormônios sexuais, vitamina D e ácidos biliares; é constituinte das membranas celulares além de desempenhar importante papel nos tecidos nervosos. É encontrado nos alimentos de origem animal como: pele de aves e peixes, carnes vermelhas, leite e derivados, ovos e vísceras.8

A lipoproteína de baixa densidade (LDL) concentra 60% a 70% do colesterol total, levando-o para as células, isso faz com que seja o principal foco do tratamento de dislipidemia; a lipoproteína de alta densidade (HDL) tem função reversa transportando o colesterol dos tecidos para o fígado, reduzindo assim o risco de doenças cardiovasculares. Já os triglicérides são transportados pela lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL - very low density lipoprotein) e pelos quilomícrons. 9

            Vários estudos epidemiológicos e de intervenção, demonstram que a diminuição dos níveis plasmáticos de LDL-c reduz a chance de eventos cardiovasculares, seja em indivíduos que já apresentaram algum evento ou não. A diminuição dos níveis de triglicérides e a elevação dos níveis de HDL-c também são fatores considerados benéficos para diminuição de processo aterotrombótico, mesmo não havendo o mesmo grau de evidência quando comparado à redução aos níveis de LDL-c. Portanto o controle desses fatores de risco se tornam essenciais para prevenção de eventos cardiovasculares. 8

          Em relação à Hipertrigliceridemia as causas podem ser genética, maus hábitos alimentares (excesso de carboidratos na alimentação), sedentarismo, tabagismo, diabetes e o uso de bebidas alcoólicas.

             De acordo com a V Diretriz brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose os valores de referencia do perfil lipídico são apresentados na seguinte tabela.



Conforme a classificação da V Diretriz brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose as dislipidemias podem ser classificadas em:

- Hipercolesterolemia isolada: elevação isolada do LDL-c (≥ 160 mg/dl);

- Hipertrigliceridemia isolada: elevação isolada dos triglicérides (TG) (≥ 150 mg/dl);

- Hiperlipidemia mista: valores aumentados de LDL-c (≥ 160 mg/dl) e TG (≥ 150 mg/dl);

- HDL-c baixo: redução do HDL-c (homens < 40 mg/ dl e mulheres < 50 mg/dl) isolada ou em associação a aumento de LDL-c ou de TG.
           
Influência da alimentação e do exercício físico na dislipidemia 

O reconhecimento da influência da alimentação nas doenças crônicas tem crescido significativamente a demanda por orientação alimentar e nutricional. 10

A qualidade da dieta influência os níveis de triglicerídeos, colesterol, LDL-c e HDL-c. Os produtos de origem animal, por exemplo, são as principais fontes de gordura saturada que é composta de ácidos graxos de cadeia longa, como ácido palmítico, mirístico e esteárico, capazes de elevar os níveis de LDL-c. Modificações na dieta podem reverter exames bioquímicos como o perfil lipídico alterado. 11

Em relação à gordura trans, esse tipo de gordura além de elevar os níveis de LDL-c reduzem os níveis de HDL-c, aumentando ainda mais o risco cardiovascular. 9

As principais fontes de ácidos graxos trans na dieta são: as gorduras vegetais hidrogenadas, margarinas, cremes vegetais, biscoitos e bolachas recheados, sorvetes, pães, fast food, pasteis, bolos, tortas ou qualquer outro alimento que contenha gordura vegetal hidrogenada em seus ingredientes.12

 Já as gorduras poli-insaturadas, ácido linoleico e linolênico (ômega 3 e 6), associam-se com baixo risco cardiovascular. As fontes alimentares de ômega 3 são os peixes, sementes de linhaça, óleos de peixe e soja. As fontes alimentares de ômega 6 são os óleos vegetais como milho e girassol.

Os hábitos alimentares saudáveis e a prática de exercício físico desenvolvem um importante papel na redução da dislipidemia. A prática regular de exercícios físicos desempenha papel essencial na prevenção e tratamento da doença aterosclerótica, seu impacto ocorre principalmente na redução dos triglicerídeos e no aumento do HDL-c, além de contribuir para a redução da pressão arterial e colaborar no controle do peso.12

Tratamento não farmacológico

Tratamento não farmacológico segundo recomendações da V Diretriz brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose, de acordo com o Grau de recomendação e nível de evidência.



Nível de evidência: ( A - Muito recomendado, pois existem múltiplos estudos controlados; B -  Um único estudo clínico controlado e aleatorizado, estudos clínicos não aleatorizados ou estudos observacionais bem desenhados).

           O plano alimentar para pacientes com hipercolesterolemia deve promover o controle do colesterol, gorduras saturadas e trans.



É esperado que após 6 semanas de tratamento dietético haja redução nos níveis de LDL-c. Podem ser utilizados alguns alimentos funcionais, como os fitosterois e as fibras solúveis.13

            As fibras solúveis como beta glucanos, psillium, gomas (aveia, cevada e leguminosas), pectinas (presentes em frutas) e mucilagens; uma vez que são transformadas pela ação das bactérias no intestino grosso em ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), atuam na redução do LDL-C, inibindo a síntese de colesterol, e absorvendo os ácidos biliares, fazendo com que haja desvio do colesterol endógeno para uma nova síntese de ácidos biliares.13

          A utilização das fibras solúveis no tratamento das dislipidemias é preconizado tanto pela Sociedade Americana quanto pela Sociedade Brasileira de Cardiologia em seus respectivos consensos.

         Já os fitoesterois (FE) são compostos bioativos vegetais que não podem ser sintetizados pelo organismo humano; sua principal ação é reduzir a absorção intestinal do colesterol. Esses compostos possuem estruturas químicas semelhantes ao colesterol, por esse motivo seus mecanismos de ação compartilham de vias semelhantes de absorção intestinal.13,14

           Os FE são encontrados nos óleos vegetais (canola, soja e girassol), grãos, oleaginosas, legumes e frutas. 



            Estudos e consensos mostram a eficácia e a segurança da utilização de fitoesterois na redução dos níveis de colesterol total e LDL-c, principal fator de risco para as doenças cardiovasculares. 14

          A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) preconiza o uso desses compostos como auxiliares na redução da absorção de colesterol, porém orienta que o consumo deve ser associado a uma alimentação equilibrada e hábitos saudáveis.    A recomendação segura é de 1 a 3 porções por dia as quais garantem a ingestão de 1 a 3g de fitoesterois dia.15

O plano alimentar para pacientes com hipertrigliceridemia deve ser focado na reeducação alimentar a fim de promover melhores hábitos alimentares e adoção de um estilo de vida mais ativo (prática de atividade física).

Deve ser dada também atenção especial ao controle do diabetes, dos carboidratos na dieta e do peso corporal.

         Em um estudo realizado com pacientes ambulatoriais foi constatado que 78% dos pacientes estudados, apresentaram melhora ou redução nos níveis bioquímicos após procurarem acompanhamento nutricional, o que mostra a importância da intervenção nutricional para melhora no estado de saúde do paciente, contribuindo para melhores desfechos. 16

 Fato semelhante foi encontrado em um estudo realizado com pacientes com dislipidemia atendidos no ambulatório de nutrição antes e após orientação nutricional; houve melhora no perfil nutricional e consumo alimentar, consequentemente melhor controle dos níveis lipídicos, já que a alimentação, o excesso de peso e a obesidade andrógena ou central exercem forte influência na doença aterosclerótica.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Texto elaborado por: Regina Célia da Silva

Especialização em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, 2015.

Graduação em Nutrição pelo Centro Universitário São Camilo, 2012.

Referências Bibliográficas:

1. Bertoni VM, Zanardo VPS, Ceni GC. Avaliação do perfil lipídico dos pacientes com dislipidemia atendidos no ambulatório de especialidades de nutrição da URICEPP. Perspectiva, Erechim [periódicos na Internet]. 2011 mar [acesso em 24 de maio de 2014]; 35(129):177-188. Disponível em: http://www.uricer.edu.br/new/site/pdfs/perspectiva/129_165.pdf.

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.

3. Moraes SA, Checchio MV, Freitas ICM. Dislipidemia e fatores associados em adultos residentes em Ribeirão Preto, SP- Resultados do Projeto EPIDCV. Arq Bras Endocrinol Metab, 2013;57(9):691-701.

4. Neves PAR, Silva AE, Esteves EA. Perfil lipídico de mulheres adultas e sua relação com adiposidade central. Rev Bras Promoc Saude, 2013 abr./jun.;26(2):258-265.

5. Organização Mundial da Saúde. Atlas de Doenças Cardíacas e Derrames. Genebra: OMS; 2004.

6. Sposito CA, Caramelli B, Fonseca FAH, Bertolami MC, Afiune Neto A, Souza AG, et al.; Sociedade Brasileira de Cardiologia. IV Diretriz Brasileira sobre dislipidemias e prevenção da aterosclerose. Arq Bras Cardiol. 2007 abr;88(Supl 1):2-18.

7. Fernandes RA, Christofaro DGD, Casonatto J, Codogno JS, Rodrigues EQ, Cardoso ML, Kawaguti SS, Zanesco A. Prevalência de dislipidemia em indivíduos fisicamente ativos durante a infância, adolescência e idade adulta. Arq Bras Cardiol, v. 97, n. 4, p. 317-323, 2011.
8. Santos RD, Gagliardi ACM, Xavier HT, Magnoni CD, Cassani R, Lottenberg AM et al.; Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz sobre o consumo de gorduras e saúde cardiovascular. Arq Bras Cardiol. 2013 jan;100(1 Supl 3):1-40.

9. Vieira LP, Ávila AL VAN-ERVEN. Doenças Cardiovasculares. In.: TADDEI et al, J. A. A. C. Nutrição em saúde pública. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2011. p. 325 – 336.

10. Prates RE, Silva ACP. Avaliação do conhecimento nutricional e de hábitos alimentares de pacientes com doenças crônicas não transmissíveis em hospital particular no sul do Brasil. Rev da Associação Brasileira de Nutrição, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 21-27, jan./jun. 2013.

11. Venturini CD, Engroff P, Gomes I, Carlo GA. Prevalência de obesidade associada à ingestão calórica, glicemia e perfil lipídico em uma amostra populacional de idosos do Sul do Brasil. Rev Bras Geriatr Gerontol. Rio de Janeiro, v.16, n. 3, p. 591-601, 2013.

12. Bortoli C, Bonatto S, Bruscato NM, Siviero J. Ingestão dietética de gordura saturada e carboidratos em adultos e idosos com dislipidemias oriundos do Projeto Veranópolis. Rev Bras Cardiol. 2011 jan/fev;24(1):33-41.

13. Isosaki M, Cardoso E. Manual de Dietoterapia e Avaliação Nutricional do serviço de nutrição e dietética do Instituto do Coração – HCFMUSP. 1 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2004: p.13-18.

14. Xavier HT, Izar MC, Faria Neto JR, Assad MH, Rocha VZ, Sposito AC et al.; Sociedade Brasileira de Cardiologia. V Diretriz Brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose. Arq Bras Cardiol. 2013 out;101(4 Supl 1):1-22.

15. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Dislipidemias - Disponível em: www.portal.anvisa.gov.br .Acessado em: 20/05/2015

16. Pimenta CDZ, Paixão MPCP. Análise da adesão da terapêutica nutricional proposta aos pacientes atendidos na clínica integrada de nutrição de uma faculdade particular em Vitória-ES. SaudPesq [periódicos na Internet]. 2013 jan/abr [acesso em 24 de maio de 2014];6(1):153,162. Disponível em: http://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/saudpesq/article/view/2373/1856.

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