terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Niacina



     A niacina, ao contrário das outras vitaminas, foi descoberta como um composto químico, o ácido nicotínico, produzido pela oxidação da nicotina em 1867, muito antes de se pensar que tivesse alguma importância na nutrição. Sua função metabólica como precursor da porção coenzima da nicotinamida nucleotídeo (NAD e NADP) foi descoberta em 1935. Não é usual classificar a niacina com letras e números, como outras vitaminas do complexo B, pois a denominação B3, torna-se errônea, uma vez que esse símbolo foi primeiramente utilizado para designar o ácido pantotênico. A niacina ocorre sob a forma de dois compostos: ácido nicotínico e nicotinamida, e no organismo as duas formas exercem as funções atribuídas à vitamina.

            O processo de absorção é o mesmo para ambos os compostos. Eles são rapidamente absorvidos em porções do estômago e do intestino, por processo de transporte ativo dependente de sódio (quando a niacina está em baixas concentrações) e difusão passiva (quanto em altas concentrações); portanto, praticamente, toda niacina ingerida parece ser absorvida. O excesso de niacina é excretado na urina sob a forma de diversos metabólitos, sendo o principal deles o N¹-metil-nicotinamida e seu derivado piridona. Em situações de ingestão insuficiente de niacina, ela pode ser sintetizada a partir do triptofano, na taxa de 60mg de triptofano para 1mg de ácido nicotínico. É uma conversão dependente também da vitamina B6 e riboflavina.

           A niacina é essencial a quase todas as reações bioquímicas do metabolismo dos macronutrientes para obtenção de energia na forma de ATP. A principal função é exercida pelas coenzimas NAD e NADP, em que ambas participam de pelo menos 200 reações no metabolismo celular, principalmente nas de oxidação e de redução, que ocorrem nas células. A NAD também participa de reações de catabolismo, na glicólise (na conversão de glicose em piruvato) e no ciclo do ácido cítrico e é rapidamente regenerada.

                 Ambas as enzimas agem como receptores de íons H+, na remoção desses íons de moléculas específicas. Quando isso acontece, a forma reduzida das coenzimas é representada como NADH+H+ ou NADPH+H+. A forma NADPH+H+ é importante na via bioquímica da síntese de ácidos graxos e também de hormônios. Além dessas funções, a niacina protege os epitélios e o trato gastrointestinal, ajuda na mobilização do cálcio e é necessária no reparo do DNA.

Recomendações de Ingestão

Quadro 1. Valores de DRIs para Niacina.

Estágio de vida
EAR (mg/dia)
RDA (mg/dia)
UL (mg/dia)
Recém-nascidos e crianças



0-6 meses
-
2 (AI)
ND
7-12 meses
-
4 (AI)
ND
1-3 anos
5
6
10
4-8 anos
6
8
15
Homens



9-13 anos
9
12
20
14-18 anos
12
16
30
19-70 anos
12
16
35
> 70 anos
12
16
35
Mulheres



9-13 anos
9
12
20
14-18 anos
11
14
30
19-70 anos
11
14
35
> 70 anos
11
14
35
Gestantes



≤ 18 anos
14
18
30
19-50 anos
14
18
35
Lactantes



≤ 18 anos
13
17
30
19-50 anos
13
17
35





*EAR (Necessidade Média Estimada); RDA (Quota Diária Recomendada); AI (Ingestão Adequada); UL (Limite Superior Tolerável de Ingestão).
Fonte: IOM (1998)/Cozzolino, 2005.

Fontes Alimentares

        Quantidades significativas de niacina são encontradas na carne (especialmente carne vermelha), fígado, legumes, leite, ovo, grãos de cereais, leveduras, peixe e milho. Embora leite e ovos contenham pequenas quantidades de niacina pré-formada, seu conteúdo em triptofano provê mais do que suficiente niacina equivalente. A carne vermelha é uma das melhores fontes por sua abundância tanto em niacina pré-formada quanto em triptofano. A niacina também está presente nos cereais, entretanto esta não é biologicamente disponível, uma vez que se encontra na forma esterificada. No farelo de trigo cerca de 60% da niacina estão esterificados a polissacarídeos e o restante, a polipeptídeos e glicopeptídeos. O tratamento dos cereais com álcalis leva à liberação do ácido nicotínico, motivo pelo qual no México, por causa da utilização de tortilhas preparadas com milho que sofreu tratamento com solução de hidróxido de cálcio, a incidência de pelagra não é alta.


Quadro 2. Conteúdo de niacina em alimentos considerados fonte.

Alimento
Medida usual
Quantidade (g)
Niacina (mg)
Fígado cozido
1 unidade
100
17,5
Salmão cozido
2 filés
200
15,0
Peito de frango sem pele
1 unidade
100
13,7
Atum enlatado em óleo
2 ½ colheres de sopa
112,5
13,2
Peito de peru assado
1 filé
100
6,4
Carne moída (20% gordura)
3 ½ colheres de sopa
63
3,7
Bacalhau cozido
1 pedaço
135
3,3
Camarão no vapor
13 unidades
104
2,6
Tilápia cozida
2 filés
200
2,6
Linguiça defumada
1 gomo
50
1,6
Amendoim
25 unidades
10
1,3
Arroz branco cozido
4 colheres de sopa
125
2,9
Batata inglesa cozida
1 ½ unidade
202,5
2,8
Arroz integral cozido
6 colheres de sopa
198
2,6
Goiaba
½ unidade
95
1,1
Morango
10 unidades
240
1,0
Abacate amassado
4 colheres de sopa
120
2,0
Tomate comum
1 unidade
109
0,7
Cenoura crua
1 unidade
84
0,8
Fonte: Philippi, ST. 2008.


Deficiência de Niacina

            A primeira descrição de pelagra (a deficiência clássica em niacina) ocorreu na Espanha e foi denominada pelo médico Casal em 1735 como “mar de la rosa” (doença da rosa). O nome atual foi atribuído tempos mais tarde, pelo médico italiano Frapolli: “pelle” + “agra” (pele rugosa), em 1771.

              A pelagra é conhecida como a doença dos 3 Ds – dermatite, demência e diarreia. A dermatite caracteriza-se por lesões cutâneas fotossensíveis, como queimaduras solares, e também aparece em regiões não expostas à luz do sol, mas sujeitas a pressões. A demência ocorre em estágios mais avançados da deficiência e caracteriza-se como uma depressão psicótica, em que o paciente apresenta fases de surto alternadas com repentinos momentos de lucidez. Além desses sintomas, a deficiência da vitamina também provoca perda de apetite, insônia, glossite e, se não for tratada, pode levar à morte. A população em geral não se encontra em risco de deficiência, no entanto, não é um quadro raro entre alcoólicos. Estes, além da ingestão inadequada, precisam de maior quantidade de niacina, uma vez que o metabolismo do etanol é dependente de NAD.



As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizada única e exclusivamente, para seu conhecimento.



Referências Bibliográficas:

Cozzolino, SMF; Cominetti, C; Bortoli, MC. Grupo das Carnes e Ovos. In: Philippi, ST. Pirâmide dos Alimentos: fundamentos básicos da nutrição. 1. ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2008.

Vannucchi, H; Chiarello, PG. Niacina. In: Cozzolino, SMF. Biodisponibilidade de nutrientes. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2005.


Vannucchi, H.; Cunha, SFC. Vitaminas do Complexo B. International Life Sciences Institute – ILSI, 2009

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