quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Lignanas


Muitos estudos têm sugerido que dietas ricas em carboidratos complexos, aqueles presentes em grãos, frutas e vegetais e pobre em gorduras, principalmente as saturadas, estão associadas com a redução do risco de doenças crônicas degenerativas (DCD). Os benefícios à saúde, primordialmente atribuídos à presença de fibras solúveis e insolúveis nestes alimentos, advêm também da presença de compostos bioativos a elas associadas, como é o caso das lignanas.

As lignanas são amplamente estudadas em relação ao seu potencial promotor de saúde. Dentre os benefícios já relatados foi constatado que as lignanas possuem atividade antioxidante, anti-inflamatória, fitoestrogênica  e anticâncer. Paralelamente a estes estudos, tornou-se claro que os efeitos de saudabilidade são crucialmente dependentes da biodisponibilidade destes compostos no organismo.

O íleo e o colón ao propiciarem a colonização das bactérias são as porções do trato-gastrointestinal que mais influenciam na biodisponibilidade deste composto. Interessantemente mulheres em geral apresentam um maior número de bactérias capazes de realizar a biotransformação do que homens. Fatores genéticos, diversidade de bactérias presentes, a ocorrência ou não de microflora bem estabelecida e saudável, uso de antibióticos, transito intestinal e tipo de lignana ingerida, são outras variáveis capazes de interferir na disponibilidade deste composto no organismo.

Nos alimentos as lignanas estão concentradas no farelo dos cereais e na camada externa das sementes oleaginosas, mas podem também serem encontrados em menores quantidades em vegetais, frutas e bebidas como o café, suco de laranja, vinho tinto e chás. Apesar de em geral os alimentos conterem de 2 mg lignana/ 100g de alimento, a linhaça e o gergelim contêm mais de 300mg/100g de semente. 



Devido a sua ocorrência em diversos grupos alimentares a ingestão de lignanas na alimentação é frequente, porém não necessariamente em concentrações suficientes a exibição de seus benefícios. No ocidente, por exemplo, o consumo de lignanas deriva de fontes como grãos e cereais integrais, feijões, vegetais, frutas e bebidas como vinho e café, fontes essas com baixo teor de lignanas.

O valor de recomendação diária para lignanas, associados aos benefícios provenientes do seu consumo, ainda não foi determinado.

Uma das propriedades mais estudadas em relação às lignanas é sua ação fitoestrogênica. Assim como as isoflavonas presente na soja as lignanas bioconvertidas pelo nosso organismo podem atuar exercendo atividade estrogênica ou antiestrogênica. A peculiaridade destes compostos deve-se a sua semelhança estrutural ao 17 β-estradiol, isto é, ao estrógeno feminino (hormônio responsável pelo desenvolvimento das características femininas e controle do ciclo menstrual).

Durante a menopausa ou em indivíduos que sofrem de deficiência estrogênica, os fitoesteróis agem equilibrando os níveis de hormônio ao suprirem os receptores de estrogênio. Realizando o que chamamos de reposição hormonal natural ou atividade estrogênica. 



Porém na presença de estrógeno, as enterolignanas exercem atividade antiestrogênica ao competirem com o estrógeno pelo mesmo sítio de ligação nos receptores. Neste caso as enterolignanas, assim como as isoflavonas, abrandam os efeitos carcinogênicos provocados principalmente pelo excesso de estrógeno nos tecidos mamário e uterino.

Estrógenos são hormônios esteroides bastante complexos e altamente específicos.  Atuam sobre uma diversa gama de órgãos e tecidos, dentre eles o útero a mama, o ovário, os testículos, a próstata, os ossos, o fígado, coração e sistemas nervoso e imunológico, de maneira dose dependente. Sabe-se que o excesso de estrógeno pode promover em mulheres câncer de mama e endométrio e exacerbar doenças autoimunes. Enquanto sua carência durante a menopausa esta associada ao desenvolvimento da osteoporose, doenças coronarianas, depressão e doenças neurodegenerativas.

Os benefícios advindos do consumo de lignanas e sua relação com doenças cardiovasculares também vem sendo amplamente estudado pelos cientistas da nutrição funcional.  Existe uma infinidade de dados provenientes de diversos tipos de modelos experimentais (in vitro, em animais e humanos), que concordam entre si sobre os aspectos positivos ás doenças cardiovasculares. Dentre os principais benefícios cita-se o aprimoramento do perfil colesterolêmico, proteção contra a aterosclerose e redução da pressão sanguínea.

A hipótese de que as lignanas seriam benéficas à saúde do coração foi levantada a partir da observação da relação entre incidência de doença versus alimentação. Dietas ricas em cereais são comprovadamente benéficas ao coração, já que proporcionam uma menor predisposição ao desenvolvimento de doenças cardíacas. Cereais além de conterem fibras alimentares são também fontes naturais de lignana, mesmo que em baixas concentrações. Por este motivo, diversas pesquisas foram realizadas no intuito de compreender qual a participação das lignanas na prevenção das doenças cardíacas. E até o momento os resultados têm sido positivos.

Seja pelas lignanas, fibras, vitaminas ou minerais, espero ao final deste artigo ter lhe oferecido mais uma razão, motivação ou incentivo ao consumo de sementes e cereais. Lembre-se que tanto a linhaça como o gergelim, além de serem ricas em lignanas, podem também oferecer um sabor especial ao cardápio do seu dia a dia. 

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

Biazotto, FO. Lignanas: a maioria ingere, mas poucos a conhecem! Grupo de Estudos em Alimentos Funcionais – GEAF, ESALQ/USP. Disponível em: www.alimentosfuncionais.blogspot.com.br Acessado em: 03/12/2019.

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