sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Alergia x Intolerância Alimentar



Alergia alimentar é diferente de intolerância alimentar. Equivocadamente tem se considerado alergias e as intolerâncias alimentares como sinônimos, e grande parte desses efeitos adversos são responsabilizados por promoverem processos alérgicos. As reações alérgicas envolvem mecanismos imunológicos que podem ou não ser mediados pela IgE (Imunoglobulina E), que normalmente se encontra associada a alergias alimentares e reações de hipersensibilidade, tendo como característica a rápida liberação de mediadores como a histamina. A clássica reação alérgica a um nutriente ocorre rapidamente, geralmente dentro de 1 hora após estímulo. Todavia, também pode existir na reação dependente de IgE uma fase tardia já amplamente demonstrada em modelos de “desafio” cutâneo, nasal e bronquial, quase sempre precedidos pela reação imediata.

Já na intolerância alimentar o que ocorre é uma reação adversa a alimentos incluindo reações tóxicas, farmacológicas e metabólicas. Estas podem causar alterações digestivas inespecíficas, distúrbios cutâneos e respiratórios, cujos sintomas seriam devido à participação de anticorpos da classe IgG (Imunoglobulina G). A intolerância alimentar manifesta-se após horas e até mesmos dias depois da ingestão do alimento. Portanto, deve ser considerada no diagnóstico diferencial da alergia alimentar e, embora possa ocorrer similitude de sintomas, o tratamento difere dependendo do mecanismo envolvido na reação.

Os mecanismos imunológicos envolvidos na alergia às proteínas alimentares podem ser categorizados em Tipo I, Tipo II, Tipo III e Tipo IV. Sendo a Tipo I, a reação anafilática ou de hipersensibilidade imediata, sinônimo de alergia. Envolve anticorpos reagínicos tipo IgE que têm a propriedade de se unirem aos mastócitos e basófilos, constituindo o mecanismo essencial no desenvolvimento da anafilaxia. Os órgãos afetados incluem primariamente a pele e mucosas, o sistema respiratório e o trato gastrointestinal. Assim, os sintomas deste distúrbio podem ser expressos como eczema, urticária, angioedema, rinite, asma, dor abdominal, vômito, diarreia e outros.

            A do Tipo II - Hipersensibilidade citotóxica dependente de anticorpo - envolve anticorpos IgG e IgM que reagem contra componentes antigênicos inseridos na superfície celular. Não existem, no momento, evidências que impliquem esse tipo de reação na alergia alimentar. A presença desses anticorpos provavelmente representa uma resposta imunológica normal a uma proteína estranha que não foi excluída ao nível da mucosa. Estes anticorpos são prevalentes em lactentes, em pacientes com doença inflamatória ou na doença celíaca.

O Tipo IV - Hipersensibilidade mediada por células ou Hipersensibilidade Tardia - é mediado por linfócitos T e macrófagos e manifesta-se pela infiltração de linfócitos e macrófagos no lugar onde o antígeno está presente com a liberação de linfoquinas. Existem evidências que atribuem este evento a uma tolerância oral ao antígeno agressor. No homem estão presentes cinco classes moleculares de imunoglobulinas, designadas IgG, IgA, IgM, IgD e IgE. Não mediados por IgE – respostas alérgicas do tipo tardio (IgM, IgA, IgG).

Pacientes com sintomatologia variada como gastrite, enxaqueca, artrites e nefrites constituem a população de interesse para a investigação de eventual patologia alérgica. Os sintomas podem estar “mascarados” simulando o quadro clínico de outras doenças, pois estas reações (dependentes da resposta do sistema imunológico) são de natureza inflamatória. Assim, fica claro que as reações adversas aos alimentos podem provocar um amplo leque de manifestações clínicas mediadas por IgE (alergia clássica) ou por IgG.

As manifestações clínicas da reação alérgica podem variar de moderadas a graves, podendo mesmo, em alguns casos, ser fatais. Os sintomas surgem rapidamente, entre alguns minutos até duas horas após a ingestão do alérgeno, e podem incluir manifestações cutâneas (pele e mucosas), respiratórias, gastrointestinais e cardiovasculares, de forma isolada ou combinada:

Manifestações muco-cutâneas: 

- Erupções cutâneas;
- Eczema Urticária;
- Edema da glote e da língua;
- Sensação de formigueiro na boca.

Manifestações gastrointestinais:

- Vômito;
- Dores abdominais;
- Diarreia.

Manifestações respiratórias:

- Pieira;
- Dificuldades respiratórias.

Manifestações cardiovasculares:

- Diminuição da pressão arterial;
- Perda de consciência
.
Os testes cutâneos avaliam a sensibilização aos alérgenos. É teste simples, rápido e pode ser realizado no próprio consultório de médico capacitado e requer cuidados em sua realização e interpretação.

O diagnóstico laboratorial pode ser feito através da determinação de IgE e IgG total ou específica.

IgE total - alergias imediatas.
IgE específico (rastreamento para grupo de alimentos) - mais de 50 diferentes tipos de alimentos.
IgG e IgG4 específicos - alergias tardias.

Em suma a reação alérgica a um alimento em particular são dependentes de um mecanismo imunológico: mediados por IgE; Ou não mediados por IgE – respostas alérgicas do tipo tardio (IgM, IgA, IgG).

A importância da alergia alimentar no contexto da alimentação atual é crescente na medida em que os hábitos alimentares e a disponibilidade de nutrientes tem se transformado rapidamente em função das inovações tecnológicas acessíveis.  A predisposição genética, a potência antigênica de alguns alimentos e alterações a nível do intestino parecem ter importante papel. Existem mecanismos de defesa principalmente a nível do trato gastrintestinal que impedem a penetração do alérgeno alimentar e consequente sensibilização. Estudos indicam que de 50 a 70% dos pacientes com Alergia Alimentar possuem história familiar de alergia. Se o pai e a mãe apresentam alergia, a probabilidade de terem filhos alérgicos é de 75%.

Um estudo publicado na revista Nutrients, 2015, avaliou a modulação imune pela vitamina D e sua relevância para Alergia Alimentar.  Para além da sua função clássica no metabolismo ósseo e do cálcio, a vitamina D também está envolvida na regulação imune.

Dentro dos sistemas imunes inatos e adaptativos, o receptor da vitamina D e enzimas em monócitos, células dendríticas, células epiteliais, linfócitos T e linfócitos B medeiam as ações imunomoduladoras da vitamina D. A insuficiência / deficiência de vitamina D cedo na vida, tem sido identificada como um dos fatores de risco para alergia alimentar.

Vários estudos têm observado uma associação entre o aumento da latitude e da prevalência de alergia alimentar, plausivelmente vinculada à exposição inferior a radiação ultravioleta (UVR) e síntese de vitamina D na pele. Junto com evidências epidemiológicas de uma ligação entre o status da vitamina D e alergia alimentar e sensibilização alimentar mediada por IgE.

Estudos sugerem que baixos níveis de vitamina D resultam em um aumento da susceptibilidade a infecções gastrointestinais e barreira de defesas comprometidas. Na presença de uma microbiota alterada do trato gastrointestinal e uma tolerância imunológica reduzida, isto pode predispor um indivíduo a respostas alérgicas a antígenos alimentares.

Há um interesse significativo do papel da vitamina D para a saúde do sistema imunológico ideal. Evidências epidemiológicas recentes sugerem que tanto a insuficiência e/ou excesso de vitamina D podem contribuir para a insuficiência de tolerância oral e alergia alimentar subsequente em lactentes. É evidente que a vitamina D tem efeitos alargados sobre o sistema imunológico, mas como ele modula a função imunológica na alergia alimentar não é clara.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

Chan, K. A.; Pereira, F. P.; Junior, J. C. Alergia alimentar na infância: análise de sua distribuição geográfica. Pediatria Moderna Set 13 V 49 N 9 págs.: 369-376.

Krogulska, A et al. Prevalence and Clinical Impact of IgE-Mediated Food Allergy in School Children With Asthma: A Double-Blind Placebo Controlled Food Challenge Study. Allergy Asthma Immunol Res. 2015 Nov;7(6):547-56.

Pujol, AP. Alergia x Intolerância Alimentar. Instituto Ana Paula Pujol. Disponível em: www.institutoanapaulapujol.com.br

Suaini, N. H. A. Immune Modulation by Vitamin D and Its Relevance to Food Allergy. Nutrients. 2015 Aug; 7(8): 6088–6108.

Vassallo, M. F.; Camargo, C. A JR. Potential mechanisms for the hypothesized link between sunshine, vitamin D, and food allergy in children. J Allergy Clin Immunol. 2010 Aug;126(2):217-22.

Zanin, C. M.; Marchini, J. S.; Carvalho, I. F.; Reações adversas a alimentos e imunidade humoral: subclasses de IgG a antígenos alimentares. Nutrire; rev. Soc. Bras. Alim. Nutr.= J. Brazilian Soc. Food Nutr., São Paulo, SP. , v.24, p.125-134, dez., 2002.

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