terça-feira, 14 de junho de 2016

Vitamina B9 (Ácido Fólico, Folato)



O ácido fólico é uma vitamina do complexo B, hidrossolúvel, cuja fonte é exclusivamente exógena. Atua na formação de produtos intermediários do metabolismo, que por sua vez estão envolvidos na formação celular. Está presente na síntese de DNA e RNA, na formação e maturação das hemácias e leucócitos e serve como carreador de carbono isolado na formação do grupo heme. Formador de coenzimas (dihidrofolato e tetrahidrofolato), auxilia na conversão da vitamina B12 para uma de suas formas de coenzima. Cerca de 80% do ácido fólico presente na dieta encontra-se sob a forma de poliglutamatos, que são absorvidos no intestino delgado. Grande parte do folato proveniente da alimentação sofre metilação e redução dentro da célula da mucosa intestinal, sendo o 5-metil-tetrahidrofolato o folato que entra na circulação portal. Há pouca perda na urina e a maioria do folato plasmático encontra-se ligado à proteína, que o protege da filtração glomerular. A perda fecal também é pequena, uma vez que a absorção de metil-tetraidrofolato no jejuno é muito eficiente.

Avaliação do Estado Nutricional de Ácido Fólico

            A avaliação bioquímica de folato é feita pela dosagem de seus níveis séricos e eritrocitários, cuja faixa de referência normal situa-se entre 9,8 e 16,2nmol (4,4 e 7,2mcg/L) para o primeiro e 420 e 620nmol (185 e 270mcg/L) para o segundo. Outras alterações laboratoriais que podem ser encontradas são resultados anormais dos testes de função hepática, elevação dos níveis séricos de desidrogenase lática, homocisteína e ferro, associados ao folato eritrocitário reduzido. A medida de folato sérico reflete o balanço imediato, ou seja, referente ao consumo recente, enquanto a medida de folato eritrocitário indica melhor a situação dos tecidos, referente a um período mais longo.

            O diagnóstico da deficiência de folato é feito pelos níveis séricos abaixo de 6,8nmol/L (ou 3,0mcg/L) e eritrocitários abaixo de 320nmol/L (ou 140mcg/L). A homocisteína encontra-se elevada na deficiência de cobalamina, folato e piridoxina, e em pacientes que apresentam erros inatos do metabolismo de enzimas associadas à homocisteína, portanto, não se trata de um exame específico. Por isso, a análise de vitamina B12 é feita em conjunto ao diagnóstico de deficiência de folato, e a própria deficiência de folato também pode levar à redução nas concentrações de cobalamina por um bloqueio metabólico.

            Os valores de referência normais de homocisteína para a população com menos de 60 anos variam de 6 a 12µmol/L para o sexo feminino e de 8 a 14µmol/L para o sexo masculino.

Fontes Alimentares 

           Os alimentos com maior teor de folato são as leveduras, vegetais folhosos verde-escuros frescos, fígado e outras vísceras, amendoim, ovo, cereais enriquecidos e grãos integrais.

            O leite de mulheres com adequado estado nutricional de ácido fólico cerca de 85mcg/L dessa vitamina, enquanto o leite de vaca apresenta 50mcg/L. Dessa forma, lactentes que recebem outro tipo de alimentação além do leite materno têm um risco maior de apresentar deficiência.

Quadro 1. Conteúdo de folato em alimentos considerados fonte.

Alimento
Quantidade em 100g (µg)
Medida usual
Quantidade (µg)
Fígado de galinha (cru)
590
1 unidade (30g)
177
Fígado de boi (cozido)
212
1 unidade (100g)
211
Ovo cozido
47
1 unidade (45g)
21
Lentilha cozida
181
3 colheres de sopa (54g)
98
Feijão cozido
20
1 concha (100g)
21
Espinafre cozido picado
146
2 colheres de sopa (50g)
39
Brócolis cozido
50
3 colheres de sopa (40g)
20
Folhas de mostarda cozida
73
2 colheres de sopa (50g)
37
Laranja
30
1 unidade (180g)
54
Fonte: Philippi, 2008.

Fortificação dos Alimentos com Ácido Fólico

            O enriquecimento de alimentos com ácido fólico tem se tornado uma prática comum no mundo todo. Nos Estados Unidos, tornou-se obrigatória em 1996 e, no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da Resolução n.344, de 13 de Dezembro de 2002, instituiu a obrigatoriedade do enriquecimento de farinhas de trigo e milho (também fubá e flocos de milho) com ácido fólico (150µg a cada 100g de farinha), além do ferro (4,2mg a cada 100g de farinha). No entanto, a resolução excluiu do regulamento a farinha de trigo integral devido a limitações de processamento tecnológico. A Resolução considerou as recomendações da OMS e da Organização Panamericana da Saúde (Opas) de fortificação de produtos alimentícios com ácido fólico para a redução de doenças do tubo neural e mielomeningocele. Na rotulagem dos produtos, devem-se observar as seguintes expressões: farinha de trigo fortificada ou enriquecida ou rica em ácido fólico e ferro. É importante considerar que 1µg de folato alimentar equivale a 0,6µg de ácido fólico de alimento fortificado ou suplemento.

Recomendações Nutricionais

            As recomendações nutricionais para o folato segundo as DRIs variam conforme o estágio de vida e gênero. A manutenção de níveis normais de homocisteína é considerada um indicador de adequada ingestão de folato. Durante o período gestacional, o aumento da ingestão de folato tem um papel protetor na prevenção de espinha bífida e outros defeitos do tubo neural associados à sua baixa ingestão. Atualmente recomenda-se a suplementação de ácido fólico no início da gestação.

Quadro 2. Recomendações das DRIs para folato.

Grupos
Estágio de vida
Homens (mg/dia)
Mulheres (mg/dia)
1° ano de vida
0-6 meses
65 (AI)*
65 (AI)*
1° ano de vida
7-12 meses
80 (AI)*
80 (AI)*
Pré- escolar
1-3 anos
150
150
Escolar
4- 8 anos
200
200
Escolar
9-13 anos
300
300
Adolescente
14-18 anos
400
400
Adulto
≥ 19 anos
400
400
Gravidez
Todas as idades
-
600
Lactação
Todas as idades
-
500
AI = Ingestão Adequada.
Fonte: Philippi, 2008.

Deficiência em Folato

            A deficiência em ácido fólico pode aumentar em situações como baixa ingestão, aumento da demanda durante crescimento, gravidez e lactação, má absorção, hemólises e doenças malignas, como leucemias. O alcoolismo crônico também está associado com a deficiência em folato. Algumas drogas induzem essa deficiência, como drogas quimioterápicas (por exemplo, metotrexate), antibacterianas (trimetoprim) e antimaláricas (pirimetamine). Um número de drogas antiepilépticas, incluindo difenilidantoina (fenitoína) e algumas vezes fenobarbital e primidone, também podem causar deficiência de folato.

            A deficiência em ácido fólico é relativamente comum; cerca de 8 a 10% da população de povos desenvolvidos têm baixas reservas, medidas pelo folato eritrocitário. A anemia perniciosa afeta cerca de 0,13% da população, com ligeiro aumento nas mulheres. Essa deficiência produz anemia megaloblástica ou macrocítica com características semelhantes às da deficiência em vitamina B12. Entretanto, lesões de mucosa e outras manifestações clínicas, como defeitos no tubo neural ou, mais recentemente, hiper homocisteinemia com danos vasculares, são bem conhecidos como consequência da deficiência em folato. A deficiência em folato pode também estar associada com complicações durante a gravidez, como abortos espontâneos, sangramentos e pré-eclâmpsia. Outros trabalhos observaram correlação entre deficiência de ácido fólico e câncer colorretal. As deficiências em vitamina B12 e folato se associam com a doença psiquiátrica, embora os mecanismos subjacentes não sejam claros. Insônia, esquecimentos e irritabilidade durante o desenvolvimento da deficiência em folato respondem bem à administração da vitamina.


Toxicidade

            O ácido fólico não é tóxico, mas deve haver certa preocupação pelo fato de que altas doses podem mascarar anemia perniciosa. Entretanto, esse efeito é estabelecido apenas com ingestão superior a 5mg. As evidências relacionadas com doses de 1mg ou menores ocorrem quase inteiramente de ácido fólico injetável. A maioria dos estudiosos concorda que uma ingestão de 1.000µg (1mg) de ácido fólico total incluindo o folato dos alimentos não apresenta riscos identificáveis de efeitos adversos conhecidos. O valor de UL (limite superior tolerável de ingestão) recomendado para ácido fólico é de 1000µg/dia para adultos.

As informações contidas neste blog, não devem ser substituídas por atendimento presencial aos profissionais da área de saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e etc. e sim, utilizadas única e exclusivamente, para seu conhecimento.

Referências Bibliográficas:

Mafra, D; Cozzolino, SMF. Ácido Fólico. In: Cozzolino, SMF. Biodisponibilidade de nutrientes. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2005.

Philippi, ST; Jaime, PC; Ferreira, CM. Grupos das Frutas e dos Legumes e Verduras. In: Philippi, ST. Pirâmide dos alimentos: fundamentos básicos da nutrição. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2008.

Vannucchi, H; Monteiro, TH. Ácido Fólico. International Life Sciences Institute – ILSI, 2010.
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